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João Delgado (Lagos, c. 1553 – Coimbra, 30 de Setembro de 1612) Autoria: Bernardo Mota Palavras Chave: Jesuítas, Santo Antão, Matemática, Clávio Biografia Tornou-se Jesuíta por volta de 1574. Entre 1576 e 1585 estudou Teologia em Roma; aí cursou também Matemática na célebre “Academia de Matemática” do Colégio Romano, tendo sido aluno do próprio Cristóvão Clávio, apesar de o seu nome não vir referenciado nos catálogos de alunos do Colégio Romano que ainda subsistem. Voltou a Portugal com o intuito de seguir para o Brasil, mas a viagem acabou por não se concretizar. Não se pode excluir a hipótese de ter ensinado matemática em Portugal logo após o seu regresso de Itália, nos anos de 1584 ou 1585, mas com certeza, apenas se pode afirmar que leccionou matemática entre 1586 e 1589 em Coimbra, em cursos privados. Nos anos 1589-1590 exerceu em Évora as tarefas de Padre e confessor, mas sem funções docentes atribuídas; no mesmo ano de 1590 fundou a primeira cátedra de matemática num colégio Jesuíta em Portugal, o de Santo Antão, em Lisboa. Aí ensinou a disciplina até à sua morte e formou um pequeno grupo de matemáticos, muitos dos quais acabaram por leccionar na própria instituição. A sua actividade docente, no entanto, não foi contínua, mas sofreu diversas interrupções, também devido ao facto de lhe caber o cargo de arquitecto para toda a toda a província Lusitana. Nessa qualidade dirigiu diversas obras, entre as quais as de Santo Antão-o-Novo, as do Noviciado da Cotovia e as do Colégio das Artes. Durante as suas ausências, o ensino da matemática em Santo Antão foi assegurado normalmente pelo seu assistente Francisco da Costa. Dos cerca de vinte e cinco anos que leccionou, apenas conhecemos o conteúdo de parte do curso de 1605/6, com ênfase em temas de Astronomia e Esfera e do ano imediatamente seguinte (1606/7), que se concentrou em temas de Astrologia Prática ou Judiciária. Do primeiro existem dois manuscritos (Lisboa, Biblioteca da Academia de Ciências, Cod. 491 V; Porto, Biblioteca Pública Municipal, Cod. 664); um terceiro manuscrito, pertencente a um coleccionador privado, parece possuir o mesmo conteúdo, mas corresponde antes a um curso leccionado no ano de 1598. O segundo dos cursos referidos sobrevive em três manuscritos (Lisboa, Biblioteca Nacional, Cods. 2130 e 6353; Madrid, Biblioteca Nacional de Espanha, Cod. 8931). Existe, além destes, outro manuscrito intitulado Explanationes in Sphaeram Ioannis de Sacrobosco que apresenta o nome do autor ilegível, mas contém lições ditadas em Coimbra em 1587 (Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade, Cod. 1184); como nesta data não havia docente de matemática na Universidade de Coimbra e João Delgado já ensinava no Colégio da cidade, o curso chegou a ser-lhe atribuído; no entanto, nos colégios portugueses de então era prática comum os próprios professores de filosofia leccionarem algumas lições de esfera elementar, não sendo este um exclusivo dos professores de matemática. Sabe-se que João Delgado tencionava compor um curso de matemática para ser lido em três anos, pois em 1606 chegou ao Geral Cláudio Acquaviva, em Roma, um pedido de assistente que o pudesse ajudar nesse trabalho. A versão final deste manual deveria ser enviada para Roma a fim de receber a opinião de Clávio, mas o texto não chegou a ser publicado e talvez nunca tenha chegado a ser escrito. Também se formulou a hipótese de haver uma correspondência regular com Clávio; mas, apesar de provável, nenhum documento atesta esta suposição. Os cursos de João Delgado não são apenas interessantes pelo conteúdo matemático. O curso de teórica dos planetas abria com um prólogo sobre temas de epistemologia da matemática, que adquiriram grande relevância nos séculos XVI e XVII. Nisto Delgado parece ter sido um pioneiro: foi um dos primeiros formandos da Academia de Clávio a empreender um tratamento tão cuidado do tema e o primeiro a fazê-lo em língua portuguesa (embora em Portugal o tema já tivesse surgido anteriormente em aulas de filosofia, leccionadas em Latim). Fontes biográficas secundárias Luís de Albuquerque, A «Aula de Esfera» do colégio de Santo Antão no século XVII (Coimbra: Agrupamento de Estudos de Cartografia/Junta de Investigações do Ultramar, 1972). [Um estudo pioneiro e, por isso, necessariamente datado e marcado por pequenas imprecisões]. ARSI, Lusitania 39 e 44 [Catálogos de 1586-1611]. Ugo Baldini, “As Assistências Ibéricas da Companhia de Jesus e a actividade científica nas missões asiáticas (1578-1640). Alguns aspectos culturais e institucionais”, Revista Portuguesa de Filosofia, LIV.2 (1998) 95-246. [Os artigos de Baldini, este e os seguintes, são fundamentais, apesar de repetitivos no que toca a Delgado; neste, a informação encontra-se na p. 229 n. 94.] Ugo Baldini, “The Portuguese Assistancy of the Society of Jesus and Scientific Activities in its Asian Missions until 1640”, in: História das Ciências Matemáticas - Portugal e o Oriente / History of Mathematical Sciences - Portugal and East Asia (Lisboa: Fundação Oriente, 2000), pp. 49-104 [Delgado aparece nas p. 57-58 e 74.] Ugo Baldini, “L'insegnamento della matematica nel Collegio di S. Antão a Lisbona, 1590-1640)”, in: A Companhia de Jesus e a Missionação no Oriente. Actas do Colóquio Internacional promovido pela Fundação Oriente e pela Revista Brotéria. Lisboa, 21 a 23 de Abril de 1997 (Lisboa: Fundação Oriente, 2000), pp. 275-310. [Sobretudo a p. 281, n. 20] Ugo Baldini, “The Academy of Mathematics of the Collegio Romano from 1553 to 1612”, in: Jesuit Science and the Republic of Letters (Cambridge: MIT Press, 2003), pp. 47-98. [Sobretudo a p. 91, n. 87.] Luís Miguel Carolino, “João Delgado SJ e a «Quaestio de Certitudine Mathematicarum» em inícios do século XVII”, Revista Brasileira de História da Matemática, v. 6, nº 11 (2006) 17-49. [Sobre o pensamento metamatemático de João Delgado; contém uma edição do capítulo proemial do curso de teóricas dos planetas no final]. Lisboa, Biblioteca Nacional, COD. 1664. [Trata-se de uma famosa sinopse de Franco: Annalium societatis Iesu in Lusitana prouincia a suis initiis ad nostra tempora summula chronologica a P. Antonio Franco eiusdem societatis iesu; João Delgado aparece referido na f. 204]. Francisco Gomes Teixeira, História das Matemáticas em Portugal (Coimbra: 1934). [Apenas um breve e esquemático apontamento sobre Delgado.] Rodolfo Guimarães, Les Mathématiques en Portugal (Coimbra: Imprensa da Universidade, 1909). [Contém um breve apontamento sobre Delgado na p. 29]. Henrique Leitão, “Appendix C: Scientific manuscripts from the S. Antão college”, in: The practice of mathematics in Portugal. Papers from the International meeting held at Óbidos, 16-18 November 2000 (Coimbra: Imprensa da Universidade, 2004), pp. 745-758. [Um catálogo onde surgem os manuscritos atribuídos a Delgado] Henrique Leitão, Sphaera Mundi: A Ciência na Aula de Esfera. Manuscritos Científicos do Colégio de Santo Antão nas Colecções da BNP (Lisboa: BNP, 2008). [Biografia de Delgado na p. 103; descrição dos manuscritos nas pp. 105-108.] Bernardo Mota, “The Influence of Cristopher Clavius in Portugal: João Delgado on the Status of Mathematical Demonstrations”, in: Synergia: Primer encuentro de jóvenes investigadores en historia de la ciencia (Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2007), pp. 413-429. [Sobre o pensamento metamatemático de João Delgado]. Bernardo Mota, O Estatuto da Matemática em Portugal nos Sécs. XVI e XVII (Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação para a Ciência e Tecnologia, 2011). [O pensamento de João Delgado é descrito nas pp. 210-223.] João Pereira Gomes, “Delgado (João)”, in: Verbo, Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura – Edição séc. XXI (Lisboa: Editorial Verbo, 1999), sub nomine. [O artigo onde se lança a hipótese de Delgado ser o autor das lições contidas no Cod. 1184 da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.] Francisco Rodrigues, A Formação Intellectual do Jesuita. Leis e Factos (Porto: Livraria Magalhães e Moniz Editora, 1917). [Apontamento breve sobre Delgado na p. 284.] Francisco Rodrigues, História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal (Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1931-50). [Trata-se de uma obra clássica em quatro volumes; João Delgado aparece referido em: II 1, pp. 22, 209 n.3, 210; II 2, pp. 13 n. 1, 97-8; IV 1, pp. 403-4.]
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