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Abreu, João Evangelista de Versão para impressão Enviar por E-mail

João Evangelista de Abreu (Castelo Branco, 24 de Dezembro de 1827 – Lisboa, 1869)

Autoria: Maria Paula Diogo

evangelista

Palavras-chave: Escola do Exército, École des Ponts et Chaussées, Caminhos-de-ferro, Portos

Período: 1827-1869

Biografia

João Evangelista de Abreu nasceu em Castelo Branco, a 24 de Dezembro de 1827. O seu pai, Manuel Mendes de Abreu, era um médico-cirurgião de província, pouco abastado, pelo que a infância de João Evangelista foi contida, sem exageros, num ambiente rural simples, em que os valores da natureza se impunham como fundamentais.

Em 1845, com 17 anos, o jovem Evangelista junta-se ao 8º Regimento de Cavalaria, estacionado, desde há cerca de um ano, em Castelo Branco. Após o tirocínio, decide matricular-se na Universidade de Coimbra (1846), no curso de Matemática e Filosofia.

Contudo, o clima de profunda agitação política que se vive neste período, acabará por suspender a carreira académica do jovem. O país caminhava, rapidamente e entre levantamentos populares, para a guerra civil da Patuleia, cuja facção anti-cabralista era liderada pelos Setembristas da Junta do Porto. João Evangelista, então com apenas 20 anos, junta-se às tropas Setembristas contra o governo de Costa Cabral e, rapidamente, atinge o posto provisório de alferes. Durante este período, e por razões de afinidade política, conhece nomes de grande relevo da primeira geração de engenheiros civis portugueses, como Vitorino Damásio, Carlos Ribeiro e Francisco Maria de Sousa Brandão.

Quando em 30 Junho de 1847, e após a intervenção das forças estrangeiras da Quádrupla Aliança e a derrota do Setembrismo, a paz é assinada na Convenção de Gramido, Evangelista, amnistiado, volta à Universidade de Coimbra. Para tornar mais robusto o seu exíguo orçamento mensal, dá aulas particulares de violino, instrumento que aprendera a tocar durante a sua infância.

João Evangelista é, desde o primeiro momento, um aluno excepcional. Em 1850 conclui o Bacharelato em Matemática e ensina Geometria e Mecânica Aplicadas às Artes no Liceu Nacional de Lisboa (Liceu Passos Manuel, criado em 1836); em 1854, completa o curso de Engenharia Militar na Escola do Exército. Promovido a alferes efectivo (2º Batalhão de Caçadores), foi convidado, em 1855, para a comissão de ensino das disciplinas do grupo de construção (estradas e caminhos-de-ferro) da Escola do Exército, tornando-se, logo depois, professor substituto destas disciplinas.

O grupo de disciplinas de construção era parte de um conjunto do núcleo de engenharia civil que os estudantes do curso de Engenharia Militar interessados numa carreira não-militar podiam escolher. A política de fomento material iniciada, em 1850, por Fontes Pereira de Melo, havia trazido para a ribalta a importância das infra-estruturas de transportes no desenvolvimento económico: caminhos-de-ferro, pontes, portos, eram a marca do Fontismo e, em termos mais gerais, da Regeneração.

Neste contexto, os engenheiros portugueses têm a oportunidade de revelar o seu expertise, apresentando-se como os artesãos desta modernidade construída pelo mundo técnico e como uma alternativa à tradicional contratação de estrangeiros. A formação desta elite técnica tinha uma base militar, mas muitos dos engenheiros então envolvidos nas obras públicas haviam cursado as disciplinas da especialidade de civil e alguns haviam mesmo frequentado, a suas expensas, a École des Ponts et Chaussées na qualidade de auditeurs, ou alunos externos (embora sujeitos a um regime de avaliação em tudo igual ao dos alunos internos). Em 1855, o governo português estabelece três bolsas para subsidiar a formação de engenheiros portugueses no estrangeiro, particularmente na área das obras públicas. João Evangelista concorre a estas bolsas e é o primeiro classificado, seguido de Pedro Fontoura e Valentim Rego.

Em 1856, os três seleccionados matriculam-se na École des Ponts et Chaussées.

Evangelista falava muito bem francês e, tal como acontecera nos tempos estudantis de Coimbra e da Escola do Exército, cedo se destaca pela sua qualidade entre os estudantes estrangeiros. No final do primeiro ano, os alunos da École dedicavam-se ao trabalho de campo, tendo Evangelista escolhido tratar as questões relativas aos portos das costas da Gasconha e de Marselha e às estradas de montanha nos Pirenéus.

O engenheiro português passa rapidamente por Bordéus, uma vez que o seu interesse se concentrava em Baiona e no porto de Adour, cujas questões técnicas a resolver e resolvidas eram similares às dos portos do Douro; o porto da pequena vila de S. Jean de Luz, em particular, punha problemas muito idênticos aos do porto de Leixões, despertando, pois, a atenção de Evangelista.

Durante o mês que permaneceu na região de Baiona, João Evangelista familiarizou-se com o sistema de construção de Daguenet (sistema napolitano), fazendo inúmeros desenhos e recolhendo informação técnica detalhada. Estes estudos foram apresentados para avaliação numa memória.

De Baiona, Evangelista segue para Pau para estudar as ligações por estrada entre esta localidade e a fronteira espanhola, bem como as linhas-férreas que se cruzariam nessa região. Com os dois colegas portugueses, trabalhou sob a direcção do engenheiro Floucaud de Foureroi, mais uma vez elaborando um extenso álbum de desenhos com informação técnica pormenorizada.

Após a estada em Pau, dirigiu-se para Marselha, com rápida passagem por Bordéus e Baiona. Entre Bordéus e Sète, João Evangelista, já preparando a disciplina de rios e canais do segundo ano da École des Ponts et Chaussées, visita o canal des deux mers, que liga o Atlântico ao Mediterrâneo. Em seguida, juntou-se, novamente, a Pedro Fontoura e Valentim Rego para o estudo dos trabalhos e dos estaleiros do porto de Marselha, com especial atenção aos materiais e processos de construção, e dos caminhos-de-ferro entre Marselha e Toulon.

Voltou a Paris para o segundo ano de aulas, tendo podido assistir de perto à reconstrução da ponte de Saint-Michel no âmbito do projecto do boulevard de Sebastopol. Após um ano de aulas de grande exigência, mas também de grandes elogios por parte dos professores, Evangelista escolheu de novo o sul de França para mais uns meses de trabalho de campo. Antes, contudo, visitou a zona de Meaux e de Épernay, a leste de Paris, para conhecer de perto a obra de Desfontaines. Já no sul, concentrou-se no porto de Bordéus, estabelecendo comparações com o caso do porto de Lisboa, e participou, a convite do engenheiro chefe Régnauld, nos cálculos de resistência da ponte sobre o Garona que viria a ligar as linhas férreas de Orleães e do Midi. Em Marselha visitou, uma vez mais, o estaleiro do porto, bem como em Toulon, Cherburgo e Havre.
No seu regresso a Paris e à École, frequentou uma última disciplina, a de caminhos-de-ferro e, em 1859, a qualidade do seu trabalho é oficial e publicamente distinguido, recebendo, conjuntamente com o diploma, uma menção especial de louvor.

Antes de voltar a Portugal, João Evangelista fez uma derradeira missão de estudo, precisamente no âmbito da disciplina de caminhos-de-ferro, estudando a construção da ponte de Kehl, sobre a linha de Estrasburgo, que fazia a ligação entre os caminhos-de-ferro franceses e alemães.

Em 1860, quatro anos após ter viajado para Paris, João Evangelista de Abreu regressa a Portugal e à Escola do Exército. Em 28 de Setembro desse ano, e num período em que a construção dos caminhos-de-ferro em Portugal vivia um período de grande vitalidade, é chamado ao serviço do Ministério das Obras Públicas. D. Eusébio Page, o engenheiro espanhol responsável pela direcção das linhas do Norte e do Leste, havia colocado um seu colega espanhol, o engenheiro Adolfo Ibarreta, à frente da primeira linha, tendo, para a segunda, indagado junto da École des Ponts et Chaussées sobre um nome que pudesse assegurar a elevada qualidade exigida pelos trabalhos. De imediato, a École indicou João Evangelista de Abreu que logo começou as suas tarefas, ficando, ao fim de um ano, responsável também pela linha do Norte.

Os problemas técnicos nas trincheiras e nos aterros a resolver em ambas as linhas eram consideráveis, tendo ficado particularmente célebre a construção do túnel da linha do Norte, em Albergaria, na zona de passagem da vertente do Tejo para a do Mondego. Evangelista estudou todos os problemas, elaborou os seus projectos de forma convicta, não hesitando em recorrer a know-kow de operários estrangeiros (por exemplo irlandeses para a construção de túneis), terminando os trabalhos previstos em 1864, dentro do prazo estabelecido à partida, levando, assim, os comboios de Lisboa à fronteira do Leste e à margem esquerda do Douro.

Em 1865, regressou à Escola do Exército e ao Ministério das Obras Públicas, onde foi encarregue de estudar as linhas-férreas ao sul do Tejo. Em termos de carreira, subira, em 1866, ao posto de tenente na arma de infantaria e era, desde a sua criação em 1864, engenheiro chefe de 2ª classe no Corpo de Engenharia Civil. A política fontista de fomento material dava, contudo, sinais de abrandamento, pelo que, na ausência de trabalho na área ferroviária, Evangelista aceitou dirigir as obras de melhoramento do arsenal da Marinha. Este projecto interessou-lhe particularmente porque fazia parte de uma obra mais vasta de melhoramento do porto de Lisboa, tópico que João Evangelista já havia estudado por diversas vezes e no qual podia, aliás, usar todos os conhecimentos adquiridos nas suas missões enquanto aluno da École des Ponts et Chaussées. Neste âmbito, elaborou uma memória e um anteprojecto que serão referências obrigatórias em intervenções posteriores, nomeadamente sobre as questões do lodo no porto, rectificação das margens, necessidade de conquistar novos terrenos ao Tejo, saneamento de Lisboa e crescimento da cidade.

Uma vez mais por razões económicas e políticas, apenas uma pequena parte do projecto elaborado virá a ser concluído. Esta impossibilidade de “fazer obra” frustrou profundamente Evangelista, avesso, segundo os seus colegas, ao espírito contemplativo. Desesperado, romanticamente envolvido em paixões de excessos, oscilou, no final da sua vida, entre o trabalho obsessivo em inúmeros projectos, sem dormir e sem aceitar colaborações e o desinteresse total por qualquer actividade.

Em 1869, João Evangelista de Abreu morreu no hospital para alienados de Rilhafoles.

Obras de João Evangelista de Abreu

João Evangelista de Abreu, “Relatório” in: Boletim do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, n° 3, Março (1858)

João Evangelista de Abreu, “Relatório sobre o emprego do Tempo de missão feita no fim do segundo ano do curso de Pontes e Calçadas pelo aluno João Evangelista de Abreu, dirigido ao excelentíssimo Senhor Visconde de Paiva, Ministro de sua Majestade Fidelíssima em Paris”, in: Boletim do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, nº 8, Agosto (1860).

João Evangelista de Abreu, “Ante-projecto das obras de melhoramento do arsenal da marinha: memória justificativa e descritiva do ante-projecto em geral”, in: Revista de Obras Públicas e Minas, Tomo 2 (1871)

João Evangelista de Abreu, “Projecto das obras de melhoramento do arsenal da marinha: ante-projecto de um dique a construir no mesmo arsenal”, in: Revista de Obras Públicas e Minas, Tomo 2 (1871)

Fontes biográficas primárias

Arquivo Histórico do Ministério das Obras Públicas Comércio e Indústria (AHMOPCI), Ficha de João Evangelista de Abreu.

Fontes biográficas secundárias

Luciano de Carvalho, João Evangelista de Abreu. Elogio Histórico (Lisboa: Imprensa Nacional, 1903)

Esta biografia tem uma versão francesa em Annuaire de l´École des Ponts et Chaussées, 2008.
http://www.enpc.fr/fr/enpc/ecole_mouvement/pdf/webAnnuairedoublediplome10juin08.pdf.pdf