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Costa, Cristovão da Print E-mail

Cristóvão da Costa (Christovam da Costa, Christobal Acosta, Christophorus Acosta, Christophle de la Coste) (Cabo Verde? c.1525 - Burgos? c.1594)

Autoria: Teresa Nobre de Carvalho

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Palavras-chave: Matéria médica asiática, História Natural, Botânica século XVI, Tratado das Drogas

Período: c.1525 - c.1594

Biografia

Cristóvão da Costa foi médico e cirurgião. Assume-se que nasceu no continente africano. Para além do curto epigrama registado numa das suas obras, Costa assina sempre os seus tratados como Christoval Acosta el africano. Não se conhecem dados que permitam localizar com exactidão o seu local de nascimento. As opiniões dos seus biógrafos dividem-se entre Tanger, Cabo Verde e Ceuta. A origem portuguesa parece ser evidenciada por Alõso Gonçalez de la Torre que no « Dialogo entre Fortuna y Fama al Autor Christoval Acosta » o designa de « valeroso Lusitano » (Costa, 1964, fl. XXXVIIII).

Muito pouco se sabe sobre a sua juventude. Dos seus estudos, apenas se pode afirmar que cursou medicina e cirurgia. A sua fluência no idioma castelhano permite supor que frequentou universidades espanholas. Partiu a 7 Abril de 1568 para o Oriente integrando, como físico e cirurgião, a armada de D. Luis de Ataíde, 10º Vice-rei da Índia. Chegou a Goa em Outubro do mesmo ano. Cristóvão da Costa permaneceu alguns anos na Índia, ao serviço do Vice-rei. Participou, como lhe competia no cargo que ocupava, nas campanhas militares. Tal como Juan Costa refere, e o seu amigo Don Pedro Manrique confirma, o médico conheceu cativeiros e prisões (Costa, 1964, fls XXXII e XXXVII). No capítulo sobre a pimenta, Costa testemunha que o “capturaram no Malabar” (Costa, 1964, p. 14). Ao longo do Tratado das Drogas o físico conta a sua passagem pelos “bosques de Cangranor, junto ao rio Mangate” (Costa, 1964, p. 12), fala das viagens às ilhas da costa ocidental da índia (Costa, 1964, p. 72), refere a “residência na cidade de Santa Cruz de Cochim” (Costa, 1964, p. 215) e testemunha a sua actividade clínica no Hospital Real de Cochim (Costa, 1964, p. 125). Em Novembro de 1571 encontrava-se em Tanor, onde viu o sambarane (Costa, 1964, p. 109), admirou o espódio (Costa, 1964, p. 195) e conheceu o escrivão de câmara do Rei de Tanor. (Costa, 1964, p. 280).

Da permanência de Cristóvão da Costa por terras orientais pouco mais se sabe. Têm sido referidas peregrinações à longínqua China, à Pérsia, a Damasco, a Jerusalém ou ao Cairo. Das palavras de Cristóvão da Costa não se consegue estabelecer um percurso definitivo. A análise das gravuras que inclui no Tratado das Drogas pode ser uma ajuda preciosa para colmatar esta falta de dados. Plantas como as do cravinho ou a noz-moscada, oriundas respectivamente das Molucas ou de Banda, não parecem testemunhar o mesmo realismo pictural que o tamarindo, a canela ou a árvore-triste. Podemos admitir que Costa nunca as viu nas ilhas de origem. Também o pau-de-maluco, “originário daquelas partes de Maluco”, que o médico conta ter-lhe sido apresentado por D. Luis de Ataíde no ano de 1571, parece evidenciar que Costa nunca viajou até este arquipélago. Já o facto de ter desenhado “como testemunha de vista” os duriões, frutos perecíveis e incapazes de suportar grandes viagens, nos pode levar a assumir a sua deslocação mais para Oriente, talvez até Malaca, região onde estes frutos abundam.

Supõe-se que terá regressado de Goa em Janeiro de 1572, acompanhando D. Luís de Ataíde, “homem muito prudente e animoso” (Costa, 1964, p. 221). Certamente terá participado nos festejos que acolheram o Vice-rei à sua chegada ao Tejo, seguindo o cortejo que conduziu e aclamou o seu “valerosíssimo capitão” (Costa, 1964, p. 304) até à Igreja de S. Domingos.

Ao certo sabe-se que em meados da década de 1570 vivia na Península Ibérica. Em Abril de 1576 assinou um contrato por três anos com a Cidade de Burgos, que o acolheu como médico municipal. Nesta altura parece claro que Costa já dera provas de competência técnica naquela cidade. Pode assim admitir-se que a decisão da instalação em Burgos terá decorrido rapidamente entre Julho de 1572 e finais de 1575. As razões da translação geográfica de Lisboa para Castela, estão ainda por esclarecer, mas Juan Costa y Béltran pode ter tido alguma influência nessa mudança. Este catedrático, regente da cátedra de Retórica da Universidade de Salamanca talvez tenha sido o principal responsável pela  publicação do Tractado de las drogas…(Burgos, 1578), dado que na carta que dirige ao leitor deixa bem claro o esforço que teve que desenvolver para convencer o nosso médico a publicar a sua obra. Tal empenho depreende-se das palavras que lhe dedica: “o Doutor Cristóvão da Costa, médico doutíssimo (…) temia o dar à luz esta obra (…). Pareceu-me tão mal este encolhimento, que o importunei, fatiguei, movi e forcei, a que vencendo o temor o seu bom zelo, quebrasse este gelo, e depositasse nas tuas mãos a limpidez da sua intenção” (Costa, 1964, fl. XXXI). A hesitação de Costa em publicar as suas observações e reflexões é comum a todas as obras que edita. Em cada uma delas, Costa revela-se reticente em divulgar a sua leitura do mundo. Em 1581, o médico viu o seu orçamento reforçado. O Senado de Burgos propôs-lhe um novo cargo, devidamente remunerado, o de médico dos pobres. (Rodriguez Nozal & Gonzalez Bueno, 2000, p. 20).

Nesta altura já Costa teria família formada e eram-lhe reconhecidas qualidades profissionais adequadas ao desempenho do lugar proposto. Cristóvão da Costa manteve as suas funções até que a viuvez, por volta de 1587, o levou a afastar-se da sociedade. Optou então por uma vida de reflexão e de isolamento. Apesar da austeridade da sua nova existência, Costa não se alheou do mundo. Manteve a sua actividade clínica, multiplicou os cuidados com o seu jardim botânico e prolongou a relação epistolar com os seus amigos, que afirmava “visitar com as suas cartas” (Costa, 1592, p. 66). Apenas se afastou da vida em sociedade. O médico procurou assim aquilo que designou num dos seus tratados venezianos “uma santa e sossegada vida”.

Conhecem-se, actualmente, três tratados de Cristovão da Costa. Em 1592, o médico editou em Veneza duas pequenos obras: Tratado en contra y pro de la vida solitaria e o Tratado en loor de las mugeres. O primeiro é dedicado a Filipe II enquanto o segundo é dirigido à Infanta D. Catarina de Áustria.
Cristóvão da Costa, através do seu testemunho e das muitas histórias verídicas ou verosímeis que conta, procura, nestes tratados venezianos, emendar os erros da sociedade que decidiu abandonar e apontar modelos de virtude que ajudassem os seus leitores a tornar-se “gentes louváveis”. A argumentação defendida por Costa, fruto da sua experiência ou oriunda de fontes clássicas, é sinal da sua enorme erudição.

De todas as obras que publicou, aquela que lhe deu projecção no mundo erudito foi o Tractado de las Drogas (Burgos, 1578). Nesta obra, Cristóvão da Costa conciliou o saber que, na Europa como no Oriente, acumulou ao longo sua vida profissional, com os conhecimentos médico-botânicos divulgados por Garcia de Orta em Colóquios dos Simples e Drogas da India (Goa, 1563).

O Tractado de las Drogas é um pequeno volume. Ao longo de 450 páginas encontram-se distribuídas, de forma harmoniosa, cerca de meia centena de figuras desenhadas à vista por Costa. O seu formato agradável e os diversos índices remissivos tornam este compêndio atractivo e de fácil consulta, não apenas para a comunidade erudita, mas também para mercadores, navegantes, boticários ou simples curiosos.

Em 1582, Clusius publicou em Antuérpia, Aromatum et medicamentorum in Orientali India nascentium liber um pequeno resumo latino desta obra, que foi reeditado em 1593 e integrado na colectânia  Exoticorum libri decem, Leiden, 1605.

Obras como a Historiae Generalis Plantarum de Jacques Dalechamps, Lyon, 1586 e a Histoire Générale des Plantes, de Jean de Moulins, 1615, divulgaram muitas das informações respeitantes à flora asiática veiculadas no Tractado de las Drogas.

Ainda durante o século XVI, em 1585, surgiu em Veneza, Della historia, natura, et virtu delle drogue medicinali, & altri semplici rarissimi, che vengono portati dalle Indie Orientali in Europa, com le figure delle piante ritrarte & disegnate dal vivo poste a’luoghi propij. versão italiana da obra de Costa, na qual se apresenta uma tradução quase literal do texto original. Este livro foi reeditado nas oficinas de Francesco Ziletti em 1589 e 1597, revelando o entusiasmo dos leitores italianos por esta obra.
Em 1602 foi dada à estampa, em Lyon, uma versão francesa da autoria de Antoine Colin. O tratado de Costa encontrava-se integrado numa compilação de textos sobre matéria médica exótica: Traité des drogues & medicaments qui naissent aux Indes. Servant beaucoup pour l’esckaircissement & inteliigence de ce que Garcie du Jardin a ecrit sur ce sujet. A obra foi reeditada em 1619.

Em 1623, Caspard Bahuin integrou as novidades botânicas descritas por Cristóvão da Costa no Pinax Theatri Botanici, obra de referência para todos os botânicos europeus dos séculos seguintes.
O saber médico-botânico divulgado por Costa foi assim, desde muito cedo, divulgado entre a comunidade erudita europeia.

Alguns autores, entre os quais Anastásio Chinchilla, atribuem ainda a Cristóvão da Costa uma pequena obra Remedios específicos de la India Oriental y America. Barbosa de Machado, por seu turno, alude a outros escritos do médico como: Tres diálogos del amor divino, natural y humano; Discurso del viagem de los Indios…ou Tratado de la vida solitária y religiosa de mugeres. No entanto, dado que até hoje não foi possível localizar qualquer exemplar destes textos, tais notícias deverão ser tomadas com precaução. 

Obras de Cristóvão da Costa

Costa, Cristovão da, Tractado de las drogas, y medicinas de las Indias Orientales, com sus plantas debuxadas al bivo por Christoval Acosta medico y cirurjano que las vio ocularmente (Burgos: Martin de Victoria, 1578).

Costa, Cristóvão da, Tratado das Drogas e Medicinas das Indias Orientais no qual se verifica muito do que escreveu o Doutor Gracia de Orta. Versão portuguesa por Jaime Walter (Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1964).

Costa, Cristóvão da, Tractado en contra y pro de la vida solitária. Con otros dos tractados, uno de la Religion y Religioso, otro contra los hombres que mal viven (Veneza: Giacomo Cornetti, 1592).

Costa, Cristóvão da, Tractado en loor de las mujeres, y de la castidad, onestidad, constancia, silencio y justicia: con otras muchas particularidades y varias historias (Veneza: Giacomo Cornetti. 1592ª).


Fontes biográficas secundárias

Barreto, Luís Filipe, “Da medicina renascentista: o lugar de Cristóvão da Costa na leitura dos Colóquios de Garcia de Orta”, Prelo, 6 (1885) 51-90.

BM 82-83.

Carvalho, Teresa Nobre de, “Imagens do mundo natural asiático na obra botânica de Cristóvão da Costa”, Revista de Cultura, 20 (2006) 28-39.

Carvalho, Teresa Nobre de, “A apropriação de Colóquios dos Simples por dois médicos ibéricos de Quinhentos”, in: Palmira Fontes da Costa e Adelino Cardoso (org.) Percursos na História do Livro Médico (1450-1800), (Lisboa: Edições Colibri, 2011), 59-72.

Chinchilla, Anastásio, Anales históricos de la medicina en general y biográfico-bibliográfico de la española em particular (Valência: Imprenta de D. Jose Mateu Cervera. 1845), vol. 2, 51-59.

Colmeiro, Miguel, La botânica y los botânicos de la península hispano-lusitana, (Madrid: Imprenta y Estereotipia de M. Rivadeneyra, 1858), 153, item 239, 120 bis.

DSB, vol I, 47-48.

INOCÊNCIO, vol II, 68.

Morejón, António, Historia Bibliografica de la Medicina Española (Madrid: Imp. Vda. de Jordán e Hijos, 1843), vol 3, 265-269.

Puig, Joaquin Olmedilla,  Estudo histórico de la vida y escritos del sabio médico, botânico y escritor del siglo XVI, Cristóbal de Acosta. (Madrid: Herederos de M. Fernández, 1899).

Rodriguez Nozal, R. & Gonzalez Bueno. El Tractado de las drogas de Cristóbal Acosta (Burgos, 1578). Utilidad comercial y materia medica de las Indias Orientales en la europa renascentista. (Madrid: Ediciones de Cultura Hispânica, 2000).