| Lacerda e Almeida, Francisco José |
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Francisco José de Lacerda e Almeida (S. Paulo, Brasil, 22 Agosto 1753 – Cazambe, Moçambique, 18 Outubro 1798)Autoria: António Costa Canas Palavras-chave: Viagens de exploração, África, Brasil, geodesia, satélites de Júpiter Período: 1753 - 1798 Biografia Francisco José de Lacerda e Almeida nasceu no Brasil, cidade de S. Paulo, em 22 de Agosto de 1753. Filho de José António de Lacerda, boticário, nascido na Sé de Leiria, e de Francisca de Almeida, natural de S. Paulo. Tinha um meio-irmão, José Anastácio da Luz e Lacerda, nascido do segundo casamento de seu pai, após a morte da mãe. Ingressou no curso de matemática na Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra em 1772. De um total de sessenta e oito alunos matriculados nesse ano, terminaram o curso, em 1776, apenas sete. Quirino da Fonseca (1936) da Fonseca considera provável que ele tenha sido aluno de Anastácio da Cunha, que regeu a cadeira de geometria entre 1773 e 1778, naquela faculdade. No ano seguinte, 1777, apresentou dissertação para obtenção do grau de doutor, tendo sido considerado um aluno brilhante. No seu curso de matemática obteve uma sólida formação em astronomia, que mais tarde se revelou bastante útil nos levantamentos geodésicos que levou a cabo no Brasil e em África. Em 1778, logo após ter obtido o seu doutoramento, é convidado para o serviço do Estado, como geógrafo, astrónomo e matemático. No ano seguinte, é nomeado para tomar parte nos trabalhos de demarcação das fronteiras entre Portugal e Espanha, resultantes da assinatura do Tratado de Santo Ildefonso, de 1777. Em 1780 parte para o Brasil a fim de efectuar esses trabalhos. No Brasil levou a cabo levantamentos de latitudes, longitudes e declinações magnéticas, por meio de observações de estrelas, do Sol e dos satélites de Júpiter. Nestes trabalhos percorreu muitas centenas de quilómetros nalguns dos principais rios do Brasil, nomeadamente o Amazonas, o Madeira e o Rio Negro. Não era a primeira vez que se realizavam expedições científicas nalgumas daquelas regiões. Em meados do século XVIII, sob a direcção do francês La Condamine, tinha sido efectuado um levantamento da bacia do Amazonas e em 1773 fora enviado para a mesma região o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira. Mas tanto a expedição francesa como a portuguesa tinham objectivos naturalistas. As realizadas por Lacerda e Almeida podem ser classificadas como geográficas, destinando-se a obter dados geodésicos, destinados a apoiar a cartografia da região. Apesar de as viagens terem sido levadas a cabo com o principal intuito de obter os elementos necessários à definição das fronteiras, nelas eram recolhidos muitos outros elementos de interesse científico: fauna e flora, riquezas minerais, dados sobre as populações locais, etc. A sua última viagem de exploração em terras brasileiras ligou Vila Bela a S. Paulo. Tratava-se de um percurso desde o ocidente mais remoto até ao litoral. As instruções do governador da Capitania de Mato Grosso, Luís de Albuquerque de Melo Pereira Cáceres, determinavam que ele deveria «fazer uma viagem de investigação dos rios Cuiabá, Paraguai, Taquari, Cochim, Camampoan, Pardo, parte do Paraná e todo o Tieté» (Eça, pp. 34-35). Iniciou a viagem em meados de Setembro de 1788 terminando a mesma nos primeiros dias de Janeiro de 1789. Em menos de quatro meses percorreu cerca de 3 240 quilómetros, transpondo cento e treze cachoeiras. Após cerca de dez anos de estadia no Brasil, Lacerda e Almeida embarca em 10 de Junho de 1790 de regresso a Lisboa. Viveu cerca de um ano em Figueiró dos Vinhos, vindo a casar com Cecília Craveiro Levache de Faria, natural dessa localidade. Em Setembro de 1791 foi nomeado Primeiro-tenente de mar, passando a lente de Matemática na Real Academia dos Guardas-marinhas. Exerceu funções docentes nessa academia até viajar para África. Como oficial de Marinha atingiu o posto de Capitão-de-fragata. Nas várias biografias consultadas encontramos elementos divergentes no que se refere à qualidade de sócio da Academia das Ciências de Lisboa. No trabalho mais recente (Martins, p. 25) a autora afirma não ter conseguido provar essa qualidade, pois não encontrou documentos referentes à mesma. Holanda (p. XI) afirma que após regressar a Portugal, Almeida teria apresentado à Academia das Ciências o diário da sua viagem de Vila Bela a S. Paulo, tendo sido admitido como sócio a partir desse momento. Quanto a Eça (pp. 39-41) julga que a proposta de admissão teria sido apresentada em 26 de Setembro de 1787, quando ainda andava em terras brasileiras. Embora também não tenha conseguido documentar a qualidade de sócio, por parte de Lacerda e Almeida, porque «os serviços de cadastro andavam muito descurados nos tempos anteriores às invasões francesas», Eça não tem grandes dúvidas daquela qualidade, pois Almeida, entre os vários títulos que usava quando assinava, no Tete, incluía sempre o de Sócio da Academia Real de Ciências de Lisboa. Em Maio de 1797, partiu para Moçambique para aí iniciar aquela que, caso tivesse sido concluída, seria a primeira travessia de África de costa a costa. Vivia-se a época das explorações científicas, dentro do espírito do Iluminismo. O seu principal objectivo era um conhecimento tão completo quanto possível, a vários níveis: botânica, zoologia, recursos minerais, antropologia, redes comerciais, vias de comunicação, hidrografia, geodesia, etc. Era dada especial importância aos territórios ultramarinos, nomeadamente à América, despertando a África um interesse menor. Apesar disso, foram levadas a cabo algumas explorações neste continente. A primeira, digna de destaque, começou em 1783, tendo como alvo o território angolano. Era chefiada pelo naturalista Joaquim José da Silva, acompanhado de um botânico e de outro naturalista que faleceram devido ao clima. Joaquim Silva permaneceu mais de vinte anos naquele território tendo enviado para a Metrópole inúmeros «objectos curiosos» e «produtos úteis», dos quais se destacam: um jacaré, petróleo, amostras de madeira, «peixes-mulheres», produtos para tinturaria... Em 1789 chega a Angola o Dr. Álvares Maciel, deportado por ter participado numa revolta para a independência do Brasil. Aproveita a sua estadia, que dura até ao fim dos seus dias, em 1804, para proceder a explorações naturalistas, enviando materiais que recolhe, especialmente mineralógicos. Em 1784 tinha sido enviada outra expedição, desta vez para Moçambique. Chefiada por Manuel Galvão da Silva, levava ainda um botânico e um desenhador, e tinha por objetivo levantar a carta geográfica das regiões percorridas, para além de outras tarefas. Os objectivos destas expedições eram apenas parcialmente atingidos, devido à necessidade de um substancial apoio logístico que nem sempre era conseguido. Terminado este parênteses sobre as primeiras tentativas de exploração da África portuguesa, voltemos a Lacerda e Almeida. O seu objectivo era seguir o curso do Zambeze, até à zona da nascente, para aí procurar a nascente do Cunene, que corria para a costa ocidental. Este objectivo baseava-se num pressuposto errado: a existência de montanhas no meio de África das quais partiam rios para ambas as costas, servindo esses rios como vias de comunicação facilitadoras da ligação entre o ocidente e o oriente africano. Em termos de planeamento, esta expedição estava, à partida, afectada pela escolha do sentido em que se iria realizar. Em Angola existiam comunidades que procuravam penetrar cada vez mais para o interior, tentando atingir o espaço moçambicano, podendo servir como aliados de Lacerda e Almeida. Tal não acontecia na costa leste, razão pela qual se tornava difícil mobilizar habitantes locais que servissem de colaboradores e guias. Na falta de informações e apoios locais, Lacerda e Almeida decidiu penetrar a partir de Tete, confiando apenas nas suas observações de latitude e longitude para ter uma noção do percurso percorrido. Entretanto, a chegada a Tete de uma importante embaixada, enviada por um rei do interior, trouxe uma significativa mudança de circunstâncias. Tratava-se de gentes que pretendiam estabelecer contactos com os brancos da costa, tendo-se mostrado dispostos a apoiar Lacerda e Almeida no seu projecto. A expedição inicia-se então em 3 de Julho de 1798. Passados poucos dias começam as dificuldades, com a fuga de diversos carregadores a forçar o abandono de material. A 27 o explorador queixa-se de muita sede e frio, sinal de que tinha sido atacado por malária. Apesar deste problema, prossegue a expedição, anotando todos os elementos que considerava de interesse, nomeadamente as latitudes e longitudes dos locais por onde passou. Para determinar a longitude efectuou observações dos satélites de Júpiter. Em princípios de Outubro chega ao Cazembe, já bastante debilitado. O monarca local envia-lhe alguns dos seus melhores curandeiros, dada a enorme estima que tinha pelo «Geral de Tete», designação pela qual conhecia Lacerda. O seu diário termina a 3 de Outubro. Desde essa data até 18, data em que faleceu, nada se sabe. Existiam, desde o início da expedição, instruções escritas para o prosseguimento da mesma, caso Lacerda e Almeida falecesse. Caberia ao padre João Pinto assumir o comando. Porém, com a morte do principal cérebro da expedição os restantes membros desistiram, não tendo prosseguido a partir dali. Tinham percorrido cerca de 1 600 quilómetros, faltando 800 para chegarem ao Alto Cassai, região já frequentada pelos sertanejos angolanos. A travessia daquela região apenas se concretizou quase um século depois. Apesar de fracassada, a expedição de Lacerda e Almeida teve alguns aspectos que merecem realce. Pela primeira vez, determinaram-se longitudes em África por métodos astronómicos rigorosos. Os seus registos foram religiosamente guardados, tendo permanecido inéditos até meados do século XIX. Publicados em 1844-45, chegaram ao conhecimento de geógrafos estrangeiros, tendo sido traduzidos e publicados pela Sociedade de Geografia de Londres, em 1873. O prefaciador da publicação, o Capitão Burton, escreveu: «Se o Dr. Lacerda não executou o seu projecto, o seu sucesso parcial aumentou consideravelmente o nosso conhecimento sobre o interior de África.» Obras de Francisco José de Lacerda e Almeida Manuscritos Francisco José de Lacerda e Almeida, Diarios da viagem, q. por ordem do Ill.mo e Ex.mo Sñr. Luiz d’Albuq.e de Mello Per.ª e Cáceres Ill.mo e Ex.mo Sñr. Luis d’Albuquerque de Mello Pereira e Caceres fis de Vª Bella p.ª a Cid.e de S. Paulo pela ordinária derrota dos rios/Francisco Jozé de La-Cerda e Alm.da, D.r Astronomo, (s.d., post. 1788), Biblioteca Pública Municipal do Porto, Reservados, Cód. 464, fols. 19-23. Francisco José de Lacerda e Almeida, Mappa do Leito dos Rios Taquary, Cuxiim, Camapoam, Varador de Camapoam, Pardo, Paraná, Tieté e Cam.º de terra desde a Freguesia d N. S. May dos Homens de Araraytaguaba athe a Cidade de S. Paulo, que por Ordem do Ill.mo e Ex.mo Sñr. Luiz d’Albuq.e de Mello Per.ª e Cáceres do Conselho de S. Mag.e Fidellissima, q. D.s G.e G.or e Cap.m G.al das Capit.as de Matto-Grosso, e Cuyaba, e Plenipotenciario das Reaes Demarcaçoens de Lemites nas mesmas Capitt.as Levantou, e fes no anno de 1788, e 1789 O D.r Astrónomo Fran.co Jozé de Lacerda e Alm.da, 1789, Biblioteca Pública Municipal do Porto Biblioteca Pública Municipal do Porto, Reservados, C-M&A – 19 (17). Edições póstumas Francisco José de Lacerda e Almeida, Lacerda’s journey to Cazembe in 1798. Translated and annotated by Captain R. F. Burton, F.R.G.S. Also journey of Pombeiros P. J. Baptista and Amaro José, across Africa from Angola to tette on the Zambebe. Translated by B. A. Beadle. And a résumé of the journey of MM. Monteiro and Gamitto. By Dr. C. T. Beke. (London: John Murray, Albemarle Street, 1873). [Disponível em: http://purl.pt/17187] Francisco José de Lacerda e Almeida, Documentos para a história das colonias portuguesas: diário da viagem de Moçambique para os rios de Senna (Lisboa, Imprensa Nacional, 1889). Padre Francisco João Pinto, Travessia da África (Lisboa). Introdução crítica por Manuel Múrias, Agência Geral das Colónias. (Divisão de Publicações e Biblioteca, 1936). [Contém: ‘Diário da viagem de Moçambique para os rios de Sena’; ‘Diário do regresso a Sena’]. Francisco José de Lacerda e Almeida, Diários de viagem. Prefácio de Sérgio Buarque de Holanda. (Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1944). Fontes biográficas secundárias Ilídio do Amaral, Projectos portugueses da travessia da África central: uma viagem ao nordeste de Angola em meados do século XVIII ([s.l.]: Fundaçäo Eng. António de Almeida, 1989). António Alberto Banha de Andrade, Antecedentes da travessia de África (Lisboa: Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1982). José de Oliveira Boléo, Explorações dos portugueses em África: a viagem do Dr. Lacerda e Almeida: reconstituição do itinerário (Lisboa: [s.n.], 1938). Filipe Gastão de Moura Coutinho de Almeida de Eça, Lacerda e Almeida, escravo do dever e mártir da ciência: apontamentos históricos, biográficos e genealógicos. Prefácio de Alberto Iria. (Lisboa: Tipografia Severo Freitas, 1951). Quirino da Fonseca, Um drama no sertão: tentativa da travessia de África em 1798: vulgarização de episódios coloniais: com documentos inéditos e um prólogo do Almirante Gago Coutinho ([s.l.]: [s.n.], 1936). Luísa Fernanda Guerreiro Martins, ‘Francisco José de Lacerda e Almeida: travessias científicas e povos da África Central, 1797-1884’, Tese de mestrado em História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa, Universidade de Lisboa, 1997. Maria Emília Madeira Santos, Viagens de Exploração Terrestre dos Portugueses em África, (Lisboa: Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1978). |




