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João Crisóstomo de Abreu e Sousa (Lisboa, 21 de Outubro de 1811- Lisboa, 7 de Janeiro de 1895)Autoria: Maria Paula Diogo
Palavras-chave: engenharia, engenharia civil, obras públicas, Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portuguezes Período: 1811 - 1895 Biografia Nasceu em Lisboa a 21 de Outubro de 1811 e faleceu na mesma cidade em 7 de Janeiro de 1895. Filho de João José de Sousa e de Ignacia Lima de Abreu, casou com Casimira Lucia da Rocha Ferreira, tendo sido pai de Júlio Carlos de Abreu e Sousa e de João Augusto de Abreu e Sousa. João Crisóstomo de Abreu e Sousa, epítome do engenheiro típico da Regeneração, cruzou, ao longo de toda a sua vida, a engenharia com a acção política e a intervenção no mundo económico. Embora um dos seus filhos e principal biógrafo, João Augusto de Abreu e Sousa, indique que seu pai queria ter-se dedicado ao “magistério e às letras” (Sousa, 108), a sua instrução fez-se totalmente na área das Ciências: começou como aluno no Colégio de Santo Agostinho; cursou, no secundário, a Aula do Comércio (1825-27); foi bacharel em matemática pela Academia Real da Marinha (1827-29); licenciou-se em engenharia militar na Academia Real de Fortificação, Artilharia e Desenho (1830-36), onde recebeu vários prémios (apesar de ter reprovado o 3º ano por faltas, uma vez que se juntou, então com 22 anos, às tropas do Duque da Terceira); frequentou ainda as cadeiras de Química e Física na Casa da Moeda (1836) e de Astronomia na Escola Polytechnica (1837). A sua carreira militar foi assumidamente marcada por posições políticas. Encontramo-lo como praça, em 1833, no 7º Batalhão Nacional de Lisboa (depois denominado Regimento de Infantaria do Comércio), sendo nesse posto que se juntou, como já foi indicado, ainda como estudante, às tropas do Duque da Terceira, em Lisboa, a 24 de Julho de 1833; passou, depois, a 2º tenente (Regimento de Artilharia, 1834) e a 1º Tenente (Corpo de Engenheiros, Arma de Engenharia, 1837). No período da Guerra Civil de 1846-47 juntou-se, em Setúbal, às tropas de Sá da Bandeira, de quem se tornou secretário, sendo feito prisioneiro e mandado para bordo da nau Trafalgar. Na sequência destes acontecimentos pediu a demissão em 1847, vindo a ser reintegrado, ainda no posto de tenente, em 1849, e prosseguindo, então, a trajectória comum no exército, na arma de engenharia, até ao posto de general de divisão, em 1885, 10 anos antes da sua morte: capitão graduado (1851), capitão efectivo (1851), capitão de 1ªclasse (1862); major graduado (1864), tenente-coronel graduado (1866); tenente-coronel efectivo (1868). Em 1865 e 1868 desempenhou o cargo de inspector de divisão do Corpo de Engenharia. Devido à reorganização da arma de engenharia, em 1869, foi declarado supranumerário e em comissão estranha ao exército pelo decreto de 5 de Janeiros de 1870. Ascendeu, depois, ao posto de coronel (1871), general de brigada (1876) e, finalmente, a general de divisão (1876). Em 1890 foi nomeado ajudante de campo honorário do rei D. Carlos. João Crisóstomo de Abreu e Sousa desenvolverá toda sua carreira profissional na área das obras públicas. Empregado na fortificação das linhas de Lisboa, às ordens do coronel J. F. da Silva Costa, em 1833, foi requisitado ao Ministério da Guerra pelo Ministério do Reino, servindo na Inspecção das Obras Públicas (divisão do norte), sob as ordens do brigadeiro Silva Poulet em 1937. Assumiu o cargo de director das Obras Públicas dos distritos do Porto, Braga e Viana entre 1840 e 1845. Enquanto engenheiro ordinário de 2ª classe em comissão de serviço na Companhia das Obras Públicas de Portugal (1845-46), viajou, de Abril a Agosto de 1846, por Inglaterra, França e Bélgica para estudar trabalhos de estradas, canais e caminhos de ferro. Em 1846, e durante cerca de uma ano, foi encarregado dos estudos relativos à carta topográfica de Portugal. Entre 1847 e 1852 desempenhou as funções de director das obras do Canal da Azambuja, ao serviço da Companhia dos Canais da Azambuja, sendo, ao mesmo tempo, membro da comissão encarregada de examinar e dar parecer sobre o projecto de reforma da Escola Politécnica (1851) e membro do Conselho Geral de Obras Públicas e Minas (1852). Em 1853, iniciou uma relação mais estreita com os caminhos-de-ferro, na qualidade de fiscal técnico, por parte do governo, da construção da linha do caminho de ferro Lisboa-Santarém-fronteira com Espanha, acumulando esta função com a de vogal da Comissão Central de Pesos e Medidas. Em 1854 tornou-se director, por parte do governo, da Companhia Peninsular dos Caminhos de Ferro de Portugal, sendo responsável pelo reconhecimento do terreno entre o Sado e o Tejo, para determinar a melhor directriz para a linha férrea de Vendas Novas a Setúbal. Em 1856 viajou, novamente ao serviço do governo, a Inglaterra, França e Bélgica para estudar as vias de comunicação e os sistemas de exploração e administração dos caminhos-de-ferro. Durante o período de alguns meses que permaneceu no estrangeiro estabeleceu contactos com colegas de profissão e outros intelectuais europeus. Em 1857 assumiu o cargo de administrador geral interino da linha férrea Lisboa-Santarém e, em 1858-59, o de administrador geral do Caminho de Ferro de Leste. Em 1859 foi inspector dos trabalhos de estradas, primeiro, nos distritos do Porto, Braga, Viana, Vila Real e Bragança (Julho de 1859) e, depois, nos de Aveiro, Coimbra, Vizeu e Guarda (Agosto de 1859). Durante o ano de 1860 desempenhou as funções de director geral das Obras Públicas e, até 1866, foi membro de várias comissões: comissão encarregada de examinar, sob os pontos de vista técnico, militar e económico, o local escolhido pela empresa construtora do Caminho de Ferro do Norte e Leste para assentar a ponte sobre o Tejo (1860); comissões encarregadas da reorganização do Colégio Militar e da Escola do Exército (1860, 1862 e1863); comissão para o estudo das obras de encanamento do Mondego e seus afluentes (1863); negociador, por parte do governo, dos termos da rescisão amigável do contrato de 1844 da Companhia dos Canais da Azambuja (1863); comissão encarregada de inspeccionar as secções da linha de caminho de ferro do Norte, antes da sua abertura ao público (1863); vogal da comissão de inquérito à Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses (1866). Entre 1866 e 1869 voltou a ser nomeado director geral das Obras Públicas, cargo que desempenhou em simultâneo ao de vogal do Conselho Geral de Instrução Militar (1867-68). Até 1892 desempenhou, ainda, as funções de vogal efectivo da Junta Consultiva de Obras Públicas e Minas (1871), membro da comissão encarregada de proceder às provas da Ponte Maria Pia (Porto), antes da sua abertura ao público (1877), inspector das linhas férreas do Minho e Douro (1878), vogal (1881) e presidente (1884) da comissão de inquérito à Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portuguezes e também encarregue de propôr os meios para realizar a união entre as linhas do Leste e do Norte (1881), presidente da Comissão Superior de Guerra (1888), presidente do júri de exames de habilitação dos alunos de engenharia civil da Escola do Exército (1889) e presidente da comissão incumbida de examinar as reclamações dos concessionários das obras do porto de Lisboa (1892). Ao longo da sua carreira como membro da elite administrativa nacional, foi responsável por cerca de 500 pareceres sobre diversos ramos da engenharia civil. A par das suas carreiras militar e profissional, a vida pública de João Crisóstomo de Abreu e Sousa revela-nos, o engenheiro engagé, com uma intensa actividade de intervenção que se manifesta nos planos político, profissional e editorial. Assim, sendo uma “monárquico convicto” e um apoiante entusiasta da Carta Constitucional, que considerava “o codigo mais perfeito e liberal que conhecia” (Sousa, 114), milita no Partido Histórico até 1876 e, depois, no Partido Progressista, que representa na qualidade de deputado por várias vezes: por Leiria (1861), por Tabuaço e Leiria (1864), pelo Porto (1865), por Pombal (1870) e por Elvas (1879). Em 1881 é Par do Reino. Em 1864 inicia funções ministeriais que desempenhará por quatro vezes até 1892. Entre 16 de Janeiro de 1864 e 17 de Abril de 1865 é ministro das Obras Públicas no gabinete do Duque de Loulé; de 12 de Dezembro de 1864 a 5 de Março de 1865 é ministro interino da Marinha e do Ultramar; de 1 de Junho de 1879 a 29 de Novembro de 1880 é ministro da Guerra; de 13 de Outubro de 1890 a 17 de Janeiro de 1892, é presidente do Conselho de Ministros e Ministro da Guerra, acompanhando a crise do Ultimatum. No plano profissional João Crisóstomo de Abreu e Sousa, empenha-se profundamente na defesa da especificidade do trabalho civil no interior da profissão do engenheiro. Participa na Exposição sobre a necessidade de reforma do corpo dos engenheiros portugueses e num Programa da Associação Reformista dos Engenheiros (1848), com o objectivo de formar o Club Reformador dos Engenheiros Progressistas que visava “promover, por todos os meios ao seu alcance, uma nova organização do corpo dos engenheiros portuguezes, de sorte que este assuma a posição que lhe compete em Portugal, em harmonia com as necessidades do paiz e com a ilustração do seculo.” (Sousa, 56) Embora não haja notícia do funcionamento do Club, em 1869 nasce, com o mesmo espírito, a Associação dos Engenheiros Civis Portuguezes, cujos objectivos eram muito idênticos: estruturar a engenharia civil em Portugal, moldando o seu “eu” profissional, quer no plano interno (enquanto consciência de classe profissional), quer em termos externos (o reconhecimento pelo “outro” desta identidade profissional) – “Reivindicar o bom nome e reputação dos engenheiros em Portugal” (Sousa, 56). Abreu e Sousa figura entre os sócios fundadores, sendo seu presidente em 1870,1872, 1875 e 1884 e seu presidente honorário em 1894. Em termos editoriais a intervenção de João Crisóstomo é também vasta. Sócio fundador do Grémio Literário (1846), participa em diversas revistas e jornais, como colaborador, redactor ou editor: na Gazeta de Fafe, no Desforço, no Atheneu (onde pontificavam Oliveira Marreca, Serpa Pimentel, Latino Coelho e Andrade Corvo), no Boletim do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, e, principalmente, na Revista de Obras Públicas e Minas, orgão da Associação dos Engenheiros Civis Portuguezes, onde assina artigos, memórias e pareceres de referência, nomeadamente sobre a relação entre engenharia e modernidade, o ensino da engenharia na Europa e em Portugal, as práticas de engenharia no continente e nas colónias africanas e questões de gestão económica e inspecção de obras. Recebeu diversas distinções honoríficas: Grã-Cruz da Torre e Espada de Aviz; Grã-Cruz da Águia Vermelha da Prússia; Grã-Cruz do Mérito Militar de Espanha; Comenda da Ordem de Cristo (1855); Comenda da Legião de Honra; Medalha das Campanhas da Liberdade, algarismo nº2; Honras de Ajudante de Campo de Sua Magestade El-Rei; Carta do Conselho de Sua Magestade El-Rei (1861). Fontes biográficas (primárias) AHM, cx. 6 – Arquivo Histórico-Militar AHMOP/CPI – Arquivo Histórico do Ministério das Obras Públicas ROPM – Revista de Obras Públicas e Minas Fontes biográficas (secundárias) Abreu e Sousa, João Augusto de, Notas Biographicas do General João Chrysostomo de Abreu e Sousa, I Parte (1811-1864), Lisboa, 1898. Almeida d’Eça, Bento Fortunato de “Elogio Historico do Conselheiro d’Estado João Chrysostomo de Abreu e Sousa”, Revista de Obras Publicas e Minas, Ano XXVII, Tomo XXVII, Janeiro/Março, nºs 313 a 315, Lisboa, 1895. Nota: Versões desta biografia foram escritas para os Dicionário do MOP e Dicionário de História da República. |





