English (United Kingdom)Português (pt-PT)
Pereira de Sousa, Francisco Luís Print E-mail

Francisco Luís Pereira de Sousa (1870—1931)

Autoria: Teresa Salomé Mota

pereira_sousa_2

Palavras chave: Engenheiro militar, geólogo, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Serviços Geológicos, Geologia portuguesa do século XX, terramoto de 1755

Período: 1870 - 1931

Biografia

Pereira de Sousa nasce no Funchal a 22 de Setembro de 1870 e morre na Praia da Rocha a 25 de Setembro de 1931. Passa a infância e a adolescência na sua cidade natal e, aos 17 anos, parte para Lisboa a fim de estudar na Escola Politécnica, onde realiza o curso preparatório para oficias de engenharia militar. Em 1888 ingressa na Escola do Exército a fim de completar a sua formação, tendo concluído o curso de engenheiro militar em Outubro de 1894. A 10 de Outubro de 1904, com o posto de tenente, Pereira de Sousa é nomeado engenheiro subalterno de 2ª classe do Corpo de Engenharia Civil da secção de Obras Públicas. Promovido a capitão no mesmo mês, é destacado para a Direcção Geral dos Correios e Telégrafos.
No dia 1 de Janeiro de 1911, Pereira de Sousa passa a prestar serviço, a seu pedido, na Comissão do Serviço Geológico, uma vez que há muito a Geologia desperta o seu interesse, tendo já publicado, por essa altura, diversos trabalhos de cariz geológico. Entre 1918 e 1922, chefia, interinamente, por duas vezes, os Serviços Geológicos (SG), instituição que, em 1918, substitui a Comissão do Serviço Geológico. Pereira de Sousa permanece nos SG até Setembro de 1928, quando se vê forçado a abandonar a instituição devido a legislação então publicada que limita a acumulação de cargos na função pública.
Pereira de Sousa desenvolve, igualmente, actividade docente: em 1911, quando é criada a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), apresenta-se a concurso e é aceite, sendo nomeado 2º assistente da cadeira de Geologia em Novembro desse ano. Promovido a 1º assistente em 1915, passa a reger, além da cadeira de Geologia, as de Geografia Física e Física do Globo e de Mineralogia e Petrologia. Em Abril de 1929, é nomeado professor catedrático e director do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico anexo à FCUL, sendo-lhe atribuído, em Julho do mesmo ano, o título de Doutor em Ciências Histórico-Naturais. Em 1931, seu derradeiro ano de vida, Pereira de Sousa é responsável pela criação do Boletim do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico, que tem como objectivo a publicação de estudos inéditos dedicados à geologia portuguesa.
Pereira de Sousa foi ainda, durante algum tempo, professor no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa.
Em Portugal, Pereira de Sousa é sócio da Associação dos Engenheiros Civis Portugueses; sócio e vice-presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Associação dos Arqueólogos Portugueses e sócio efectivo da Academia de Ciências de Lisboa. No plano internacional, é sócio da Sociedade Geológica de França, na qual, em 1922, durante a presidência de François Antoine Alfred Lacroix (1863—1948), desempenha as funções de vice-presidente.
Fora do âmbito científico e académico, Pereira de Sousa foi presidente do Conselho Fiscal do Banco Nacional Ultramarino e membro de uma comissão nomeada pela ditadura nacional a fim de estabelecer uma nova divisão administrativa de Portugal.

Os anos em que Pereira de Sousa trabalha, primeiro na Comissão do Serviço Geológico, e, em seguida, nos SG, podem ser considerados como os mais produtivos e significativos da sua carreira científica. No entanto, este é, também, um dos períodos mais difíceis enfrentados pela instituição, depois da morte de Nery Delgado (1835– 1908), em 1908, e de Paul Choffat (1849–1919), em 1919. Quando Pereira de Sousa ingressa nos SG, Choffat é o geólogo da instituição, sendo a sua produtividade científica notável. Apesar deste último não gostar particularmente de ensinar – recusou o convite para ser professor do Instituto Superior Técnico quando da sua criação em 1911 e não deixou discípulos nos SG — a verdade é que a convivência com Choffat, a sua influência e os seus ensinamentos terão sido decisivos na formação científica de Pereira de Sousa.
A experiência de Pereira de Sousa como chefe interino dos SG não parece ter sido gratificante, o que o leva a solicitar aos seus superiores o abandono do cargo. Além disso, a acumulação das funções desempenhadas nos SG com as de docente na FCUL não lhe deixam tempo suficiente para realizar todas as tarefas que são da sua responsabilidade. No final de 1921, Pereira de Sousa deixa a chefia dos SG mas não abandona a instituição, algo que apenas acontece quando a isso se vê obrigado.

Os estudos de Pereira de Sousa relativos à geologia do Algarve são, talvez, os mais reveladores da sua actividade enquanto geólogo dos SGP. Em 1917, o geólogo inicia o trabalho de campo na região algarvia, trabalho que se encontra directamente relacionado com a realização de uma Carta Geológica do Algarve na escala 1:50 000. Os seus trabalhos sobre o Carbónico do Algarve revelam-se fundamentais para o conhecimento de uma parte da geologia do território português que se encontra, na época, ainda pouco estudada. É normal que a maior parte da produção científica dos SG se encontre relacionada com a realização da cartografia geológica: quase todos os estudos e trabalhos publicados pelos geólogos dos SG durante a primeira metade do século XX – e mesmo depois – se inscrevem nesse âmbito.
O estudo geológico do Algarve permite a Pereira de Sousa escrever e publicar diversos artigos sobre a petrografia, o vulcanismo, a tectónica e a estratigrafia da região que constituem grande parte da sua produção científica entre 1917 e 1922. Estes trabalhos são publicados, preferencialmente, nas Comptes Rendus de l’ Académie des Sciences de Paris e nas Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal. Entre esses trabalhos há a salientar “Contribuição para o estudo do Carbónico inferior e médio em Portugal, comparação com o de Espanha” e “Aperçu sur le Carbonique da la rive droite du Guadiana”, ambos publicados nas Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal na primeira metade da década de 1920 e nos quais Pereira de Sousa defende a origem marinha de certas formações do Carbónico do Algarve, revendo, deste modo, a sua posição estratigráfica.

Pereira de Sousa desloca-se com frequência ao Laboratório de Mineralogia do Museu de História Natural de Paris, onde trabalha com Lacroix que considera seu mestre. As teorias deste e de outros geólogos franceses que dedicaram parte do seus estudos grandes às estruturas tectónicas — caso de Albert Lapparent (1839—1908), Marcel Bertrand (1847—1907), Michel-Lévy (1844—1911), Émile Haug (1861—1927) e Pierre Termier (1859—1930) — e do sismólogo Fernand Montessus de Ballore (1851—1913), são a principal e mais directa influência nos estudos de geologia estrutural/tectónica de Pereira de Sousa. Indirectamente, Pereira de Sousa é também influenciado pelas teorias do geólogo austríaco Eduard Suess (1831—1914), uma vez que os geólogos franceses fazem parte de uma linhagem de seguidores de Suess cujas origens remontam a Élie de Beaumont (1798—1874).
As teorias de Suess introduzem mudanças teóricas de vulto no conhecimento da história da terra: não só dão início a uma abordagem dinâmico-estrutural, como transformam a prática da geologia sob o ponto de vista metodológico. Essas teorias são adoptadas por grande parte da comunidade geológica europeia e Pereira de Sousa entra em contacto com essas teorias quer através da leitura da obra do geólogo, quer através do conhecimento do trabalho dos geólogos franceses. Todavia, durante a sua investigação, Pereira de Sousa utiliza tanto as teorias de Suess como as dos geólogos seus seguidores de modo algo acrítico; assume-as como válidas e os trabalhos que realiza situam-se no seu contexto mas sem evidente intenção de as ‘retrabalhar’ no contexto da geologia portuguesa.
Um dos aspectos que derivam das teorias tectónicas de Suess tem a ver com a paleogeografia do globo terrestre e é neste contexto que se deve entender, no início do século XX, o renovado interesse da comunidade geológica pela questão da Atlântida. Em Portugal, Pereira de Sousa é dos que mais se interessam por este assunto, tanto mais que a localização lendária da Atlântida dada por Platão era de modo a poder situá-la próximo de Portugal, o que conferia, talvez, à questão, um interesse acrescido. A ter existido, Pereira de Sousa considera que a Atlântida seria um grande continente que ocupou quase todo o oceano Atlântico em tempos anteriores ao Quaternário e que ligava as actuais Europa, África e América. Pereira de Sousa também admite a existência posterior de uma ilha de grandes dimensões, emersa já durante o Quaternário e que, entretanto, teria desaparecido, deixando como vestígio os arquipélagos das Canárias e da Madeira.
É ainda no contexto da relação que as ilhas atlânticas hoje existentes podem ter, ou não, com o lendário continente, que Pereira de Sousa discute certos aspectos da teoria de Alfred Wegener (1880—1930), teoria que considera não ter grande aceitação por parte da comunidade científica por contrariar dados da observação.

As teorias tectónicas de Suess e dos geólogos franceses do século XIX, são, igualmente, o ponto de partida para o trabalho realizado por Pereira de Sousa sobre o terramoto de 1755 e que é aquele que, certamente, o tornou mais conhecido, tanto em Portugal, como no estrangeiro. Em 1909, escreve o seu primeiro trabalho sobre sismos, Effeitos do Terremoto de 1755 nas construções de Lisboa, resultante de uma conferência proferida na Associação dos Engenheiros Civis Portugueses a 8 de Maio do mesmo ano. A tese que apresenta a concurso para 2º assistente do 1º grupo da 2ª secção da Faculdade de Ciências de Lisboa, Ideia Geral dos Effeitos do Megasismo de 1755 em Portugal, é dedicada, igualmente, às questões da sismologia, mas é a obra em quatro volumes sobre o terramoto de Lisboa de 1755, publicada entre 1919 e 1931 e deixada incompleta por ter falecido subitamente, a mais marcante no que respeita à contribuição dada por Pereira de Sousa à sismologia portuguesa.
Neste trabalho, a principal intenção de Pereira de Sousa é a identificação de diversas regiões sísmicas em Portugal continental, utilizando, para tal, as intensidades relativas apresentadas pelo terramoto em várias localidades. As intensidades são obtidas a partir de dados retirados dos inquéritos mandados realizar pelo Marquês de Pombal no seguimento da catástrofe. Baseando-se nas teorias tectónico-estruturais de Michel-Lévy, Pereira de Sousa considera que a origem do sismo estaria relacionada com movimentos epirogénicos do ‘afundamento oval lusitano-hispano-marroquino’, expressão que designa uma depressão existente no fundo do Mediterrâneo, com expressão tectónica recente ligada à orogenia alpina, e, que, como tal, se apresenta como uma zona da crusta terrestre de grande instabilidade, sendo, por essa razão, uma zona sísmica preferencial. Pereira de Sousa localiza, ainda, o epicentro do sismo a Sul do Algarve ocidental e a NE do arquipélago da Madeira, na entrada do golfo de Cádis mas mais próximo da costa portuguesa.
O estudo sobre o terramoto de 1755 não teve grandes repercussões na cena geológica internacional, nem trouxe novidades significativas a respeito do conhecimento geológico de Portugal. No entanto, ele permitiu, pela primeira vez, a determinação de zonas com diferente sismicidade no território continental. Apesar do seu impacto limitado, o trabalho do autor constitui uma tentativa isolada de investigação em sismologia, numa altura em que a investigação nesta área era praticamente inexistente no país.

Pereira de Sousa é um geólogo por vocação, uma vez que não possui qualquer formação específica em Geologia – que, aliás, não existia na época em Portugal — ou mesmo, de modo mais abrangente, na área das ciências naturais. O seu trabalho é dedicado a diversas especialidades da Geologia — estratigrafia, petrografia, sismologia, vulcanismo, tectónica e outras — caracterizando-se, assim, por uma abordagem algo eclética e com acentuado pendor generalista, ainda muito ao estilo do que era habitual na prática geológica do século XIX. No seu estilo já um pouco anacrónico para a época, pode dizer-se que Pereira de Sousa é o último dos geólogos do período pioneiro da Geologia em Portugal. Tal como os seus antecessores, não deixa escola, apesar de, paralelamente à sua actividade nos SG, ter leccionado na FCUL. No que respeita à Geologia, as condições académicas, científicas e mesmo sociais existentes em Portugal não são de molde a facilitar a instituição e o desenvolvimento desta ciência. Apesar de tudo, Pereira de Sousa possui, à data da sua morte, uma carreira científica com alguma visibilidade, até mesmo no estrangeiro, algo que não voltará a acontecer a um geólogo português nas duas décadas seguintes.

Obras seleccionadas de Pereira de Sousa

L. F. Pereira de Sousa, "Subsídio para o estudo dos calcareos do Districto de Lisboa", Revista de Engenharia Militar, 9 (1887), 1—95 (separata)

L. F. Pereira de Sousa, "Estudo geológico do Polygno de Tancos", Revista de Engenharia Militar, 15 (1902), 1—34 (separata)

L. F. Pereira de Sousa, Effeitos do Terremoto de 1755 nas construções de Lisboa (Lisboa: Imprensa Nacional, 1909)

L. F. Pereira de Sousa, "Contribution à l'étude petrographique du nord d'Angola", Comptes Rendus de l'Académie des Sciences de Paris, 157 (1913), 1450—1453

L. F. Pereira de Sousa, Ideia Geral dos Effeitos do Megasismo de 1755 em Portugal, These para concurso de 2º assistente do 1º grupo da 2ª secção da Faculdade de Ciências de Lisboa, Lisboa, 1914

L. F. Pereira de Sousa, "Sur les effets au Portugal du Mégaséisme du 1er Novembro 1755", Comptes Rendus de l'Académie des Sciences de Paris, 158 (1914), 1033—1037

L. F. Pereira de Sousa, "Sur les mouvements épirogéniques pendant le Quaternaire à l'Algarve", Comptes Rendus de l'Académie des Sciences de Paris, 166 (1918), 688—691

L. F. Pereira de Sousa, "O Terremoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um Estudo Demográfico. Vol. I- Distritos de Faro, Beja e Évora", Memórias do Serviço Geológico de Portugal, (1919)

L. F. Pereira de Sousa, "O Terremoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um Estudo Demográfico. Vol. II- Distritos de Santarém e Portalegre", Memórias do Serviço Geológico de Portugal (1919)

L. F. Pereira de Sousa, "Sur le carbonifère inférieu et moyen en Portugal", Comptes Rendus de l'Académie des Sciences de Paris, 170 (1920), 116—119

L. F. Pereira de Sousa, "Aperçu sur le Carbonique de la rive droite du Guadiana", Comunicações do Serviço Geológico de Portugal, 15 (1924), 43—48

L. F. Pereira de Sousa, "O Terremoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um Estudo Demográfico. Vol. III- Distrito de Lisboa", Memórias do Serviço Geológico de Portugal (1928)

L. F. Pereira de Sousa, "Algumas rochas eruptivas das orlas mesozoica e cenozoica de Portugal", Boletim do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico da universidade de Lisboa, 1 (1931—1934), 1—16

L. F. Pereira de Sousa, "O Terremoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um Estudo Demográfico. Vol. IV- Distritos de Leiria, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Aveiro e Vizeu", Memórias do Serviço Geológico de Portugal (1932)

Fontes biográficas primárias

Arquivo Histórico do Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia

Arquivo Histórico do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa

Academia de Ciências de Lisboa

Arquivo Histórico do Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações

Biblioteca do Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia

Biblioteca do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa

Fontes biográficas secundárias

Ana Carneiro e Teresa Salomé Mota, “Francisco Pereira de Sousa (1870—1931): um terramoto para uma vida” in Ana Cristina Araújo, José Luís Cardoso, Nuno Gonçalo Monteiro, Walter Rossa e José Vicente Serrão (org.), O Terramoto de 1755 — Impactos Históricos (Lisboa: ICS/Livros Horizonte, 2007), pp. 131—143

Alfredo Augusto d’Oliveira Machado e Costa, “Dr. Francisco Pereira de Sousa”, Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 11—12 (1931), 358—361

Alfredo Augusto d’Oliveira Machado e Costa, “O Professor Dr. Francisco Luís Pereira de Sousa, 1870—1931”, Boletim do Museu de Mineralogia e Geologia da Universidade de Lisboa, 2 (1933), 2—14

Fernando Moitinho de Almeida e António Barros Carvalhosa, “Breve História dos Serviços Geológicos em Portugal”, Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal, LVIII (1974), 239—265

Jorge Macedo de Oliveira Simões, “Os Serviços Geológicos em Portugal”, Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal, XIV (1923), 5—121

Jorge Macedo de Oliveira Simões, “Biografia de geólogos portugueses — Francisco Luís Pereira de Sousa (1870—1931)”, Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal, XVII (1931), 3—11

Teresa Salomé Mota, “Os Serviços Geológicos entre 1918 e 1974: da Quase Morte a uma Nova Vida” (Tese de Doutoramento, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, 2007)