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Carlos Teixeira (Aboim, 1910 – Lisboa, 1982)Autoria: Teresa Salomé Mota
Palavras chave: Geólogo, Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Serviços Geológicos, Geologia portuguesa do século XX, escola de investigação Período: 1910 - 1982 Biografia Carlos Teixeira nasce em Aboim, concelho de Fafe, no dia 23 de Setembro de 1910, filho de Joaquina Teixeira de Magalhães, solteira, e de pai desconhecido, e morre em Lisboa, a 7 de Junho de 1982. Crê-se que o pai terá sido um padre amigo do seu tio José Teixeira, também ele padre, e que, durante algum tempo, se hospedou em casa da família. Carlos Teixeira cresce numa família de lavradores com poucas posses, sendo o papel dos seus dois tios, José e Manuel Teixeira, fundamental na sua educação, tanto do ponto de vista material como espiritual. Carlos Teixeira tem a intenção de cursar Medicina mas acaba por optar pela licenciatura em Ciências Histórico-Naturais, decisão ditada pela falta de dinheiro: a duração mais breve deste último curso, acaba por torná-lo menos dispendioso. A difícil situação financeira de Carlos Teixeira leva-o, enquanto estudante, a trabalhar como perfeito em dois colégios do Porto, a fim de suportar os custos do ensino universitário. Em 1937, Carlos Teixeira é contratado como naturalista do MLMG. Esta circunstância acaba por ser determinante na sua decisão de dedicar a vida científica e profissional à Geologia: Carlos Teixeira sempre atribuiu esta opção à influência de João Carrington Simões da Costa (1891–1982) e Domingos José Rosas da Silva (1896-1967), ambos naturalistas do MLMG e professores de Geologia na FCUP. É enquanto naturalista do MLMG que Carlos Teixeira inicia a preparação da tese de doutoramento dedicada ao Carbónico de Portugal e, em 1938, estagia em França, no Instituto Geológico da Universidade de Lille, na qualidade de bolseiro do Instituto para a Alta Cultura (IAC). De regresso a Portugal, Carlos Teixeira faz parte do grupo de geólogos que, a partir da segunda metade da década de 1930, é responsável por um período de intensa actividade científica na FCUP e no MLMG, em particular. Em 1940, Carrington da Costa, Carlos Teixeira e João Manuel Cotelo Neiva (1917) criam a Sociedade Geológica de Portugal. Em Lisboa, Carlos Teixeira acaba por se envolver na actividade de numerosas instituições que, de uma forma ou de outra, se encontram ligadas à Geologia. Torna-se consultor e vogal da Junta de Energia Nuclear e chefia o Laboratório de Estudos Petrológicos e Paleontológicos da Junta de Investigações do Ultramar, onde também é vogal. É consultor benévolo de diversas outras instituições públicas. Os primeiros trabalhos científicos de Carlos Teixeira datam de 1934 e são dedicados à Arqueologia, Antropologia e Etnologia, encontrando-se relacionados com a sua integração na escola de investigação liderada por Mendes Correia. Entre 1934 e 1937, as temáticas abordadas por Carlos Teixeira nos artigos que publica em periódicos científicos especializados versam, exclusivamente, as áreas científicas mencionadas. Até ao final da década de 1930, e ainda durante o ano de 1940, Carlos Teixeira continua a publicar, preferencialmente, nessas áreas, participando, nesse último ano, com três comunicações, no Congresso do Mundo Português. O interesse de Carlos Teixeira pela Antropologia, Etnologia e Arqueologia, e em particular por esta última, acabará por acompanhá-lo ao longo da vida. Enquanto colaborador dos SG, Carlos Teixeira é autor ou co-autor de uma parte significativa das folhas da Carta Geológica de Portugal na escala 1:50 000, sendo, também, o principal responsável pela 4ª edição, em 1972, da Carta Geológica de Portugal Continental na escala 1:500 000. Carlos Teixeira é considerado o geólogo de campo por excelência, tendo sido ele o responsável pela introdução da prática de campo sistemática na licenciatura em Ciências Geológicas — a partir de 1964, licenciatura em Geologia — da FCUL. A importância institucional e a notoriedade científica adquiridas por Carlos Teixeira no contexto da comunidade científica nacional devem-se, em parte, às relações estabelecidas com personalidades que detiveram alguma relevância institucional e política durante o Estado Novo, como foi o caso de Carrington da Costa e Mendes Correia. A liberdade de movimentos de Carlos Teixeira no seio dos SG é de tal modo significativa que, durante as décadas de 1960 e 1970, a instituição funciona como uma escola prática em Geologia, extensão da escola de investigação do geólogo na FCUL, que não possuía a infra-estrutura humana e material adequada ao exercício de trabalho de campo. É a existência desta escola prática nos SG que permite o estreitamento e a consolidação dos laços existentes entre estes e a FCUL. Catolicismo e valores republicanos entrecruzam-se na formação do carácter de Carlos Teixeira. Ele é um produto típico da educação pública republicana, como o demonstram os diversos testemunhos deixados por Carlos Teixeira relativamente ao ensino universitário e à prática científica. Nesses testemunhos, as palavras do geólogo ecoam as dos seus mestres Mendes Correia e Carrington da Costa, ambos republicanos, enaltecendo o professor universitário não apenas enquanto transmissor de conhecimentos mas, também, e sobretudo, enquanto investigador original e cientista comprometido com questões intelectuais e sociais. O conhecimento e a prática científicos são considerados fundamentais para o desenvolvimento e o ‘progresso’ do país, sendo dado particular relevo ao papel da formação de discípulos no contexto de escolas de investigação. Aspectos há da vida de Carlos Teixeira acerca dos quais se sabe ainda muito pouco. Apesar de se reconhecer o seu papel enquanto mestre, pouco se sabe, no entanto, acerca das características e modo de funcionamento da sua escola de investigação e de quem são os seus discípulos mais directos, assim como dos seus contactos e colaboradores, principalmente a nível internacional. Pouco conhecida é, igualmente, a acção de Carlos Teixeira enquanto divulgador científico. Ao longo da sua vida, o geólogo assina numerosos artigos em diversas publicações de divulgação científica, como a revista Naturália, publicada pela Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, e de cujos corpos gerentes chega a fazer parte, ou a contribuição para a enciclopédia Luso-Brasileira da Verbo, da qual é um dos directores. Carlos Teixeira interessa-se, igualmente, pelo ensino da Geologia, tanto a nível universitário como liceal, publicando diversos trabalhos sobre este tema. Paralelamente, o seu interesse recai, também, na formação dos professores de Geologia do ensino secundário, interesse que encontra eco na sua própria formação pedagógica. Carlos Teixeira é, ainda, em 1948, um dos fundadores da Liga para a Protecção da Natureza, escrevendo alguns artigos de divulgação sobre questões ambientais. A imagem usufruída por Carlos Teixeira entre os geólogos portugueses, foi construída e perpetuada pelos seus amigos e discípulos mais directos a partir do seu desempenho científico e profissional e de algumas características do seu carácter. Essa imagem, assente na tónica da renúncia aos aspectos mais mundanos da vida e no sacrifício humano e material em prol da ciência, conduziram à fabricação de uma certa mitologia na comunidade geológica portuguesa, imagem essa que se encontra repleta de imprecisões e de pequenas ‘anedotas’. Obras seleccionadas de Carlos Teixeira Carlos Teixeira “Lycopodiales do Antrocolítico português”, Boletim do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico da Universidade de Lisboa, 6 (1937), 2ª série, 131-139 Carlos Teixeira “O Antracolítico do Norte de Portugal. Novos elementos para a sua classificação”, Publicações do Museu e Laboratório Mineralógico e Geológico da Faculdade de Ciências do Porto, 7 (1938), 1ª série, 1-16 Carlos Teixeira “Introdução”, Boletim da Sociedade Geológica de Portugal, 1 (1941), 3 e 4 Carlos Teixeira “Sobre a fauna do Estefaniano do Norte de Portugal. Novos elementos para o seu estudo”, Anales de la Asociacion Española para el Progreso de las Ciencias, 3 (1942), 548-553 Carlos Teixeira, “Notas sobre a geologia do Triássico português”, Boletim da Sociedade Geológica de Portugal, 3 (1942), 161-174 Carlos Teixeira, “O Antracolítico continental português e sua correspondência com as formações similares de Espanha”, Anales de la Asociacion Española para el Progreso de las Ciencias, 1 (1943), 83-92 Carlos Teixeira, Orlando Ribeiro e João Manuel Cotelo Neiva, “Depósitos e níveis pliocénicos e quaternários dos arredores do Porto (nota preliminar)”, Boletim da Sociedade Geológica de Portugal, 1-2 (1943), 95-101 Carlos Teixeira, “O Antracolítico continental português (estratigrafia-tectónica)”, Boletim da Sociedade Geológica de Portugal, 5 (1945), 1-139 Carlos Teixeira, A Universidade e a Investigação Científica (Porto: Junta de Investigação Matemática, 1945) Carlos Teixeira, “Sur la flore fossile du Karrroo de Zambésie (Mozambique), Compte rendu sommaire des séances de la Societé Géologique de France, 13 (1946), 253-254 Carlos Teixeira, “Posição geológica dos granitos portugueses”, Técnica, 174 (1947), 369-374 Carlos Teixeira e A. Mendes Correia “A jazida pré-histórica de Eira Pedrinha (Condeixa)”, Memórias dos Serviços Geológicos de Portugal, 1949 Carlos Teixeira, “Geologia das ilhas de S. Tomé e do Príncipe e do Território de S. João Baptista de Ajudá”, Anais da Junta das Missões Geográficas e de Investigações Coloniais, 2 (1949), 1-20 Carlos Teixeira, O que vale a Geologia. Missão do geólogo (Lisboa: Edição de autor, 1950) Carlos Teixeira, G. Zbyszewski, “Contribution a I'étude du littoral pliocène au Portugal” in Comptes Rendus de la 19eme Session, Congrès Géologique International, Alger, Argel, 1952, pp. 275-284 Carlos Teixeira, “L’évolution du territoire portugais pendant les temps ante-mésozoiques”, Publicações do Centro de Estudos de Geologia Pura e Aplicada, 1 (1957-1959), 1-29 Carlos Teixeira, “Cartografia geológica de Goa” in S/a, A Geologia de Goa. Considerações e Controvérsias (Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1960), pp. 139-160 Carlos Teixeira, Panorama da Geologia no Âmbito do Ensino e da Investigação Científica, (Lisboa: Edição de autor, 1967) Carlos Teixeira , A. Cândido de Medeiros, “Mapa geológico da faixa litoral do Minho” in S/a, I Congreso Hispano-Luso-Americano de Geologia Economica, Madrid e Lisboa, 1971, pp. 175-177 Carlos Teixeira, “Protecção... ou desprotecção da Natureza”, Diário Popular de 14 de Abril de 1971, p. 7 Carlos Teixeira, L. Garcia Figuerola (dir.); F. Gonçalves e J. L. Hernandez Enrile (coord.), Mapa Geológico do Maciço Hespérico do Sudoeste da Península Ibérica na Escala 1/500 000 (Madrid: Departamento de Petrologia e Geoquimica de la Universidade de Salamanca/Instituto Geografico y Cadastral, 1975) Carlos Teixeira, Geólogos... Para quê?! (Lisboa: Edição de autor, 1976) Carlos Teixeira, Rogério Rocha e João Pais, Quadros de Unidades Estratigráficas e da Estratigrafia Portuguesa (Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1979) Carlos Teixeira e Francisco Gonçalves, Introdução à Geologia de Portugal (Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1980) Carlos Teixeira, Geologia de Portugal. Precâmbrico, Paleozóico, volume 1, (Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1981) Cartas Geológicas 27 folhas da Carta Geológica de Portugal na Escala 1:50 000 e respectivas Notícias Explicativas (1956 a 1974) Carte Géologique du Nord-Ouest de la Péninsule Ibérique, Échelle 1/50 000 (1967) Carta Geológica de Portugal na Escala 1:1 000 000 (1968) Carta Geológica de Portugal na Escala 1:500 000 (1972) Mapa Geológico do Maciço Hespérico do Sudoeste da Península Ibérica na Escala 1/500 000 (1975) Fontes biográficas primárias Arquivo Histórico do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa Arquivo Histórico da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto Arquivo Histórico do Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia Arquivo Histórico do Instituto de Investigação Científica e Tropical Biblioteca do Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia Biblioteca do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa Fontes biográficas secundárias Ana Carneiro e Teresa Salomé Mota, “Geology and Religion in Portugal: three peculiar case-studies” in The Historical Relationship of Geology and Religion, Abstracts and Field Guides, Eischtatt, Alemanha, 28 de Julho a 5 de Agosto de 2007 (Eischtatt: INHIGEO Meeting, 2007), p. 13 António Ribeiro, “Carlos Teixeira (1910-1982). O renascimento da geologia de campo no século XX” in Ana Simões (coord.), Memórias de Professores Cientistas. Os 90 Anos da FCUL, 1911-2001 (Lisboa: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2001), pp. 90-95 Francisco Gonçalves, Carlos Teixeira, Notícia Bio-bibliográfica, o Pedagogo, o Cientista, (Lisboa: Edição de autor, 1976) Francisco Gonçalves, “Notícia bibliográfica sobre Carlos Teixeira”, Boletim da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, XXII (1984-1985), 2ª série, 85-90 George Zbyszewski e Francisco Gonçalves, “Carlos Teixeira”, Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal, 69 (1983), 177-198 Orlando Ribeiro, “A personalidade de Carlos Teixeira” in Orlando Ribeiro, Opúsculos Geográficos, Volume I (Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989), pp. 307-313 Rogério Rocha, “Carlos Teixeira (1910-1982) – uma vida devotada ao serviço da Ciência”, Boletim da Sociedade Geológica de Portugal, 25 (2009), pp. 19-24 Teresa Salomé Mota, “Os Serviços Geológicos entre 1918 e 1974: da Quase Morte a uma Nova Vida” (Tese de Doutoramento, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, 2007) Teresa Salomé Mota, "Os Serviços Geológicos de Portugal: uma escola prática para geólogos", e-Terra, 1 (2010), volume 15 |





