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Campos Rodrigues, César Augusto Print E-mail

César Augusto de Campos Rodrigues (Lisboa, 9 de Agosto de 1836 - Lisboa, 26 de Dezembro de 1919)

Autoria: Pedro Raposo

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Palavras-chave: Frederico Augusto Oom, Frederico Oom, Observatório Astronómico de Lisboa, hidrografia, paralaxe solar, instrumentos, trânsito de Vénus, eclipse

Período: 1836-1919

Biografia

A carreira de César Augusto de Campos Rodrigues confunde-se com as primeiras décadas de actividade do Observatório Astronómico de Lisboa (OAL), ao qual o astrónomo dedicou mais de 50 anos da sua vida. À semelhança de tantos outros percursos científicos de então, a longa carreira no observatório nacional português foi precedida pela carreira militar na marinha de guerra. Para um jovem aspirante nascido no Portugal dos anos 1830, tal significava passar por novos estabelecimentos de ensino emblemáticos do liberalismo, nomeadamente a Escola Politécnica. Ainda que o ensino ministrado neste estabelecimento não tenha necessariamente correspondido aquilo que dele se desejava em termos da aquisição de competências práticas e técnicas, é indubitável que Campos Rodrigues, claramente dotado de uma particular aptidão para as questões mecânicas e de matemática aplicada, pode ai adquirir saberes que mais tarde teriam grande importância para o seu desempenho científico, no qual sobressaem três eixos fundamentais: os problemas práticos da instrumentação astronómica, o apuramento de técnicas de observação, e o desenvolvimento de ferramentas matemáticas para uma rápida e eficaz redução de dados observacionais.

Pouco se sabe da infância de Campos Rodrigues. Frequentou o Liceu de Lisboa e o Real Colégio Militar, e em 29 de Agosto de 1851 assentou praça na companhia dos guardas-marinhas, como aspirante de 3ª classe. Passou a aspirante de 2ª classe em 30 de Julho do mesmo ano. Fez seguidamente uma viagem de instrução ao Mediterrâneo na corveta Porto, permanecendo embarcado ate 7 de Outubro. Depois frequentou a Escola Politécnica, onde conclui o curso preparatório de Marinha em 20 de Fevereiro de 1854. No mesmo ano foi promovido a aspirante de 1ª classe, em 14 de Julho. Passou depois a Escola Naval, concluindo o respectivo curso em 3 de Julho de 1855. Oito dias depois foi nomeado para embarcar no brigue Mondego, de modo a efectuar viagem a Macau e estadia nos mares da China, como parte do percurso de oficial. A viagem proporcionar-lhe-ia, ainda que de forma indirecta, o primeiro contacto com um projecto com características da ciência humboldtiana, nomeadamente a recolha extensiva de dados quantitativos relativos a fenómenos naturais, por meio de uma rede ampla de observadores munidos dos instrumentos apropriados, e tendo em vista o mapeamento exaustivo de determinadas propriedades físicas do globo. Mais tarde, como astrónomo no OAL, Campos Rodrigues envolver-se-ia nos amplos levantamentos cartográficos do universo sideral que, embora enraizados numa longa tradição de observações astronómicas, também ecoavam este espírito de proceder a uma caracterização e mapeamento exaustivos do mundo natural por meio da medição exacta. Enquanto jovem aspirante a bordo do Brigue Mondego, no qual embarcou em 11 de Julho de 1855 para a missão a Macau, Campos Rodrigues foi incumbido, juntamente com o seu companheiro de armas e amigo pessoal José Feliciano de Castilho (1838-1864), de efectuar registos regulares de elementos meteorológicos e oceanográficos de acordo com os protocolos estabelecidos pelo superintendente do Observatório Naval dos Estados Unidos, Matthew Fountaine Maury (1806-1873). Maury desencadeara uma recolha alargada e sistemática de dados oceanográficos, distribuindo pelos navegantes norte-americanos um Abstract Log for the use of American Navigators que deveria ser preenchido durante as viagens e posteriormente devolvido ao Observatório Naval. Este procedimento foi depois estendido a nível internacional, chegando também às embarcações portuguesas.

A incumbência de seguir os protocolos de Maury serviu não só para revelar as aptidões de Campos Rodrigues (o próprio Maury assinalou a qualidade do diário náutico do brigue Mondego numa carta a Guilherme Dias Pegado, do Observatório Infante D. Luiz, em 1857), mas também um traço marcante da sua personalidade, que obriga a um esforço adicional por parte dos historiadores e biógrafos que pretendam debruçar-se sobre este cientista. À semelhança do que viria a fazer em muitas outras ocasiões, descartou qualquer mérito na elaboração dos registos oceanográficos e meteorológicos a bordo do Mondego em prol do seu camarada Castilho. Assim se revelavam o desprendimento e a modéstia excessiva, que amiúde o levariam a deixar os seus créditos por mãos alheias e a adiar sine die a publicação dos seus trabalhos, para o que também terá contribuído um vincado perfeccionismo. É certo que as várias notas biográficas deixadas por contemporâneos próximos do astrónomo enfermam de um compreensível tom hagiográfico que, muito provavelmente, levou a exagerar a preponderância de tais traços psicológicos. Mas estes são, em geral, consistentes com o que se pode apurar do seu percurso e modus vivendi, e é nítido que também incluíam uma tendência para o recato e o isolamento, ao que a carreira no OAL proporcionou um enquadramento perfeito. Campos Rodrigues seria o consumado astrónomo cenobita, confinado ao seu templo científico e alheado da vida académica e do frenesim político do seu tempo – uma forma de estar altamente contrastante com a sucessão e, amiúde, acumulação de cargos académicos, administrativos e políticos, típicas das carreiras dos homens de ciência de então.

A missão no brigue Mondego durou ate 22 de Janeiro de 1860. Rodrigues havia sido promovido a guarda-marinha em 4 de Outubro de 1856. Em 1858, recebeu um louvor pela bravura alegadamente manifestada na retoma de duas embarcações portuguesas e no aprisionamento de piratas nos mares da China. Em 22 de Dezembro daquele ano foi promovido a 2º tenente. A missão aos mares da China foi seguramente o período mais aventuroso de uma vida que iria essencialmente ser passada entre as paredes do OAL. Em 1859, o jovem oficial assistiu ao bombardeamento de Cantão pela esquadra inglesa. A 20 de Janeiro de 1860, o brigue Mondego naufragou no Oceano Índico. Houve baixas significativas, mas Campos Rodrigues contava-se entre os membros da tripulação que foram resgatados por uma embarcação americana e reconduzidos a Portugal. Depois da aventurosa missão naval, Rodrigues prestou serviço no registo do Porto de Lisboa e fez pilotagem fora da barra da capital, dedicando-se a estas funções entre Maio e Setembro de 1860. Obteve então licença para obter o diploma de engenheiro hidrógrafo, o que implicava regressar aos bancos da Escola Politécnica. Matriculou-se no curso respectivo, juntamente com o seu amigo e camarada de armas José Feliciano de Castilho, muito provavelmente o mais íntimo que teve na sua juventude. O curso conducente ao título de engenheiro hidrógrafo foi oficialmente completado em 20 de Julho de 1863. Campos Rodrigues foi seguidamente nomeado para efectuar o tirocínio em engenharia hidrográfica, que concluiu em 11 de Agosto de 1865. Em Setembro foi admitido no Instituto Geográfico dirigido por Filipe Folque (1800-1870), que, juntamente com Frederico Augusto Oom (1830-1890), o terá sondado já nesta altura para vir a integrar o pessoal do OAL, na altura ainda em fase de construção.

O OAL fora fundado em 1857 com o patrocínio de D. Pedro V e com o apoio de Friedrich Georg Wilhelm Struve (1793-1864), director do Observatório Central de Pulkovo na Rússia. Struve vira no estabelecimento do novo observatório em Lisboa uma oportunidade para desenvolver a astronomia estelar, nomeadamente no que concerne à medição de paralaxes estelares e ao estudo das nebulosas. As condições geográficas favoráveis a esses estudos oferecidas por Lisboa haviam chamado a atenção de Struve devido a um debate travado com Hervé Faye (1814-1902), do Observatório de Paris, entre 1847 e 1850, em torno da paralaxe da estrela 1830 do catálogo Groombridge. Resultados de observações efectuadas nos observatórios de Pulkovo, Paris e Konigsberg, envolvendo diferentes métodos e instrumentos, haviam sido inconclusivos, pelo que, em 1850, Faye e Struve anuíram em promover o desenvolvimento destas investigações em Lisboa. Faye foi o primeiro a prontificar-se para apoiar uma iniciativa portuguesa nesse sentido, e chegaram mesmo a ser efectuadas algumas diligências, na sequência de um discurso proferido na Câmara dos Pares, em 26 de Marco de 1850, por D. Francisco de Almeida Portugal, Conde do Lavradio. Vendo aqui uma oportunidade para dignificar na cena internacional um Portugal politica e culturalmente acanhado e subserviente, Lavradio apelara a uma activa resposta portuguesa face ao interesse manifestado pelos cientistas estrangeiros. No entanto, a ineficiência da comunicação e articulação entre as instituições envolvidas, a que acresceu a inevitável confusão gerada pelo golpe da Regeneração de 1 de Maio de 1851, tornaram inúteis as diligencias entretanto tomadas. A fundação de um novo observatório na capital portuguesa só tomou forma efectivamente em Janeiro de1857, quando D. Pedro V concedeu 30 contos de reis da sua dotação pessoal para apoiar a fundação do novo observatório. Os trabalhos de construção tiveram início em 1861, mas a morte do monarca nesse mesmo ano comprometeu o progresso dos trabalhos, que só terão arrancado em força em 1864, e que, ainda assim, teriam uma progressão lenta, com o observatório a ser efectivamente concluído, pelo menos a nível das suas estruturas fundamentais, apenas no final da década de 1870. Tendo surgido, essencialmente, como um projecto de carácter simbólico assente em mecenato real, o OAL nunca foi devidamente inscrito nas políticas de fomento do fontismo, e só com dificuldade se chegou à efectiva materialização dos planos originais.

Rodrigues recusou este primeiro convite, alegando não estar preparado para as funções que lhe eram propostas.  Oom, que, entre 1858 e 1863, estagiara em Pulkovo e visitara vários observatórios e oficinas de instrumentos de modo a preparar-se para ser o primeiro director do OAL, ocupava-se então dos trabalhos de construção das estruturas arquitectónicas relacionadas com a observação. Rodrigues foi entretanto efectuar o levantamento hidrográfico da barra e do porto de Caminha. Durante estas actividades teve a iniciativa de desenvolver algumas técnicas de trabalho de campo no sentido de efectuar observações e medições de forma precisa mas expedita, espírito no qual, posteriormente, efectuaria várias intervenções no equipamento do OAL. Desta fase de dedicação à engenharia geográfica, ficaram registos de técnicas que desenvolveu relativamente à medição de distâncias horizontais com o taqueómetro, ao cálculo de áreas delimitadas nas cartas por linhas curvas, e ao denominado problema dos três pontos ou problema de Pothenot, que se referia à projecção de um determinado ponto a partir de três pontos inacessíveis, no âmbito de uma rede primária de triângulos.

O levantamento hidrográfico em Caminha foi concluído em 1868. Em Janeiro de 1869, Rodrigues passou finalmente a integrar o pessoal do OAL que, na altura, carecendo ainda de um enquadramento institucional próprio, passou a constituir a Secção Astronómica da Direcção Geral dos Trabalhos Geodésicos (liderada por Folque) após a inclusão no Depósito Geral da Guerra, que teve uma existência breve. O ingresso no OAL marca o início de um longo período de quase reclusão no OAL e de total dedicação ao serviço do observatório. F. A. Oom, que com Rodrigues completava o pessoal científico do OAL, empenhar-se-ia na frente política para fazer vingar, em termos estatutários, o projecto que originalmente servira de base a sua edificação, pesem embora as dificuldades que localmente se opunham à sua concretização e ao próprio progresso da ciência astronómica, que se via agora enriquecida com as técnicas espectroscópicas e fotográficas para fazer avançar a astronomia estelar. O OAL permaneceria confinado às técnicas da tradicional astronomia de posição, mas com o seu potencial reforçado por muitas contribuições originais de Rodrigues. No entanto, um dos seus primeiros trabalhos dignos de nota foi o desenvolvimento de um aparato para efectuar fotografias sequenciais do trânsito de Vénus de 1874. Os astrónomos viam na medição deste fenómeno raro (que, geralmente, acontece aos pares, com um intervalo de oito anos entre cada trânsito, em períodos de 105,5 ou 121 anos) uma oportunidade para refinar o valor da paralaxe solar (o ângulo subtendido pelo raio equatorial terrestre no centro solar, à distância média Terra-Sol), um parâmetro essencial para a determinação de todas as restantes distâncias astronómicas, já que permite obter a distancia Terra-Sol. Apesar das aparatosas expedições organizadas no século XVIII para observar os trânsitos de Vénus de 1761 e 1769, os resultados foram grandemente comprometidos pela falta de uniformização de métodos e técnicas, pelo deficiente conhecimento das longitudes dos locais de observação, e pelas dificuldades inerentes à realização de observações astronómicas de precisão em estacões improvisadas. Os trânsitos de 9 de Dezembro de 1874 e 6 de Dezembro de 1882 eram especialmente apelativos porque se acreditava poder-se agora captar o fenómeno com grande exactidão através da aplicação de técnicas fotográficas. Vários aparatos foram concebidos nesse sentido, entre os quais o mais célebre é certamente o revólver fotográfico de Pierre Jules Janssen (1824-1907). Este género de dispositivos teria um significativo impacto cultural uma vez que a captação sequencial de imagens, sua função essencial, constituiu a base técnica para o desenvolvimento do cinema. No seu âmbito original, todavia, nem os revolveres nem os restantes aparatos e métodos fotográficos resolveriam o problema da determinação exacta da paralaxe solar, uma vez que também aqui surgiram as habituais disparidades metodológicas entre diferentes astrónomos e grupos, e a medição das chapas fotográficas era também afectada de erros subjectivos significativos. O dispositivo concebido por Rodrigues não chegou sequer a ser utilizado, pois os planos efectuados por F. A. Oom e João Brito Capello (1831-1901) para efectuar uma expedição a Macau não receberam a necessária aprovação parlamentar, com base em argumentos financeiros mas, muito provavelmente, devido a rivalidades latentes entre Lisboa e Coimbra, e a tentativa, da parte de F. A. Oom, de imprimir uma forte marca do OAL a iniciativa, de modo a consolidar o estatuto da instituição enquanto observatório nacional. Procurou-se ultrapassar estas dificuldades por ocasião do trânsito de 1882, através do envolvimento de António dos Santos Viegas (1835-1910), professor de Física em Coimbra, mas, por motivos que importa ainda clarificar, também esta expedição, destinada a Lourenço Marques, ficou sem efeito.

O aparato de Rodrigues diferia dos revólveres que então estavam a ser desenvolvidos na França e na Inglaterra. Baseava-se no princípio de que a cúpula do telescópio em uso funcionaria como câmara escura, ficando o obturador instalado na própria cúpula. As chapas fotográficas seriam trocadas manualmente, sendo possível disparar ate três chapas por minuto. A sua medição seria posteriormente efectuada utilizando a mesma ocular para, por meio de projecção inversa, se reconstituir a imagem original e eliminar as distorções decorrentes dos defeitos ópticos da ocular e da própria granulação da chapa. Este sistema foi possivelmente empregue, a título meramente experimental, na observação fotográfica do eclipse parcial do Sol de 5 de Agosto de 1905, mas a sua utilização não terá ido além disso.

Aparte esta invenção fotográfica, os trabalhos efectuados no OAL ao longo da década de 1870 incidiram sobretudo na finalização das estruturas arquitectónicas directamente relacionadas com a actividade observacional (salas de observação, alçapões, cúpulas externas, etc.), com a elaboração de listas de estrelas para a realização de observações regulares, e com o desenvolvimento de ferramentas matemáticas para tornar mais expedita a redução dos dados observacionais. Fazendo uso da experiência adquirida enquanto engenheiro hidrógrafo e dando-lhe continuidade, Rodrigues foi tão prolífico neste ultimo campo como na concepção de acessórios e aperfeiçoamentos para os instrumentos do OAL, tendo elaborado réguas especificamente adaptadas aos seguintes cálculos: partes proporcionais de tempo, colimação, distância dos fios horários de um retículo de passagens, correcção do azimute ou inclinação, redução de tempo sideral a tempo médio (e vice-versa), distâncias focais recíprocas de uma objectiva, redução da marcha real de uma pêndula padrão à marcha normal, e soma dos quadrados de vários números dados. Na mesma tradição de auxiliares matemáticos empregues em engenharia, construiu várias ferramentas de cálculo gráfico, cobrindo as seguintes operações: redução de passagens ao meridiano; correcção da marcha da pêndula-padrão; correcção das leituras, do nível do círculo meridiano em função da temperatura; correcção das leituras micrométricas em função do excesso de uma volta de parafuso sobre uma divisão exacta do círculo graduado do círculo meridiano; cálculo da precessão de 1855 a 1900; conversão do azimute ou da inclinação em coeficientes m e n da fórmula de Bessel; cálculo dos termos lunares na redução diária das posições estelares.

No que concerne à década de 1870, é ainda de referir o contributo do OAL para os primeiros testes telefónicos em Portugal, que tiveram inicio em 1876 e nos quais o Observatório colaborou com o Observatório Infante D. Luiz. Em Dezembro de 1877 Campos Rodrigues e F. A. Oom participaram numa chamada experimental que ligou o OAL a Escola Politécnica, onde o rei D. Luís presenciava a atribuição de prémios aos estudantes, e de onde pode ouvir a música que os astrónomos do OAL fizeram tocar no observatório para que o soberano, conhecido pela sua melomania, a pudesse apreciar via telefone.

Os trabalhos de observação sistemática só terão começado após a aprovação da Lei Orgânica do Real Observatório Astronómico de Lisboa, em 6 de Maio de 1878, que consagrava o OAL, como originalmente se pretendia, ao estudo das paralaxes estelares e das nebulosas. No entanto, a lentidão na conclusão dos trabalhos de construção e equipagem do OAL, aliada à falta de pessoal qualificado,  inviabilizaram a concretização deste programa. Seria na vertente do serviço público, e sobretudo na transmissão da hora oficial, que F. A. Oom, Campos Rodrigues e Augusto Alves do Rio (oficial de Marinha que serviu como astrónomo de 2ª classe, isto é, auxiliar, entre 1878 e 1887) concentrariam os seus esforços. As observações regulares de tempo com instrumentos de passagens portáteis Repsold (fornecidos pela firma alemã em 1866 e 1868, ambos incorporando um sistema de inversão concebido por F. A. Oom), tiveram início em 1878 e haveriam de se prolongar até à década de 80 do séc. XX. As observações de uma série definida de estrelas, efectuadas todas as noites em que o estado do tempo o permitia, eram reduzidas de modo a poder-se efectuar o acerto das pêndulas e transmitir a hora do meridiano do observatório para uma sistema de sinal horário instalado desde 1858 no Arsenal da Marinha. Neste aparato, à semelhança dos existentes em Greenwich e de muitos outros observatórios e portos de todo o mundo, um balão (mais propriamente, uma esfera metálica) era içado ao topo de um mastro, provocando-se a sua queda a 1:00 local. Todavia, reflectindo a própria debilidade do Observatório da Marinha (extinto em 1874) a que fora inicialmente associado, o dito balão horário do arsenal revelara-se pouco fiável. Em 1884 foi solicitado a F. A. Oom e a Campos Rodrigues que desenvolvessem um sistema mais exacto em que o envio do sinal horário do OAL desencadeasse a queda automática do balão. O novo sistema foi inaugurado em 1885. A queda e o sinal de origem passaram a ser minuciosamente monitorizados. Os respectivos erros, que geralmente não iam além de alguns décimos de segundo, eram publicados quinzenalmente no Diário do Governo. Tal minúcia era certamente muito mais um atestado de precisão científica colocado ao serviço da nação do que uma exigência da navegação, à qual o balão horário primariamente se dirigia. Mas era nesse espírito que F. A. Oom (oficialmente empossado como director em 1878) dirigia o observatório, e que Rodrigues, na sua vida ensimesmada, se entregava ao estudo e aperfeiçoamento do equipamento científico do OAL.

Na década de 1880, Rodrigues prestou especial atenção ao círculo meridiano Repsold-Merz, tendo efectuado, entre 1884 e 1885, uma série de observações da Estrela Polar com vista a rectificação do instrumento, considerando também a determinação da sua paralaxe caso a precisão das observações o permitisse (ainda que se possa dizer hoje que, mesmo com a exactidão granjeada por Rodrigues nos seus trabalhos astronómicos, dificilmente poderia tal ter sucedido nas circunstâncias de então). Este terá sido porventura o único projecto observacional no qual, mesmo que a um nível secundário, a determinação de uma paralaxe estelar foi considerada. De facto, o projecto original do OAL foi mantido como um discurso fundacional e identitário sem jamais ter sido concretizado. As observações de Rodrigues ficaram por reduzir, mas este pequeno programa resultou numa significativa beneficiação do círculo meridiano do OAL. Rodrigues estudou o instrumento em grande detalhe e concebeu vários dispositivos e acessórios no sentido de o tornar mais eficiente, entre os quais um aparato com diafragma íris para regular a iluminação do campo visual e dos fios do retículo do telescópio, um dispositivo que resultava num melhor ajustamento da objectiva (de notar que ocular e objectiva eram permutáveis entre as duas extremidades do telescópio), e até mesmo uma cadeira especial de observação que se podia adaptar rápida e confortavelmente à posição do observador. Também aperfeiçoou o método de criação de um horizonte artificial de mercúrio para a realização de observações no nadir, que consistia em libertar o mercúrio ao longo de uma gargantilha metálica, e que se assemelhava a um método desenvolvido independentemente em Paris. Estas inovações e melhoramentos revelar-se-iam fundamentais para conferir ao OAL algum prestígio internacional, nos anos que se seguiram.

Entretanto, em 1887, Rodrigues viu-se forçado a assegurar as observações de tempo face à saída de Alves do Rio. Também neste caso estudou minuciosamente os instrumentos de passagens, tendo-lhes acrescentado um sistema especialmente desenvolvido para repor com exactidão e de forma expedita a pontaria do telescópio no decurso de cada observação, uma vez que se procedia à inversão do instrumento (por meio do sistema de rotação concebido por F. A. Oom, acima referido). Este procedimento eliminava o erro de colimação mas implicava efectuar novamente a pontaria do telescópio. O dispositivo de Rodrigues permitia marcar e visualizar facilmente as posições relativas do telescópio, por meio de um sistema de rodas dentadas com níveis de bolha acoplados. Um outro dispositivo facilitava a iluminação da escala do nível de bolha empregue para estudar o erro de horizontalidade do instrumento (erro de nível). Usando este aparato reforçado, Rodrigues aproveitou para aperfeiçoar os valores das ascensões rectas de estrelas de referência listadas no almanaque Berliner Jahrbuch. A precisão dos resultados terá impressionado o astrónomo americano Lewis Boss (1846-1912), do Observatório Dudley (Albany), que as usou na elaboração do seu Preliminary General Catalogue of 6188 Stars for the Epoch 1900. O refinamento deste trabalho resultaria no General Catalogue, uma obra de grande relevância para o estudo dos movimentos próprios das estrelas e da dinâmica da Via Láctea.

Os resultados de Rodrigues foram possibilitados não só pelos aperfeiçoamentos introduzidos nos instrumentos de passagens, mas também pela beneficiação do aparato electrocronográfico. Neste campo destacam-se um cronógrafo com caneta registradora única mas dois electroímans (um para os sinais de tempo, e outros para os sinais da observação), e um interruptor com uma peca basculante em V, adaptado a todas as pêndulas do observatório, que marcava os impulsos por meio do corte da corrente eléctrica. Este era, aliàs, o princípio que Rodrigues impusera a todo o trabalho observacional efectuado no OAL e a todos os dispositivos cronográficos. Mesmo o registo dos instantes das observações era efectuado por meio de uma chave também em V (chave Krille) cujas componentes o observador mantinha premidas, aliviando-as no momento exacto em que via a estrela observada a ser bissectada pelo fio do retículo.

Os erros do observador, quantificados através da chamada equação pessoal, constituíram uma das preocupações fundamentais das ciências exactas do sec. XIX, e Rodrigues não deixou de lhes prestar especial atenção. O referido interruptor em V fora, aliás, inicialmente desenvolvido como um aperfeiçoamento a um aparelho destinado à medição da equação pessoal, que simulava a passagem de estrelas e discos planetários num retículo marcado num ecran. Rodrigues estudou também os métodos de observação no que concerne ao momento de efectuar o registo cronográfico da observação, concluindo que este deveria, tanto quanto possível, coincidir com o momento real da bissecção pelo fio, em vez de se procurar antecipar o momento da bissecção, um método então corrente designado por “bird-shooting”. No que respeita a este tópico o astrónomo chamou também a atenção para a possível influência da magnitude das estrelas nos erros subjectivos de observação. Não se conhecem registos que sugiram ter aprofundado esta investigação, mas o fenómeno havia já sido notado por Otto Struve e foi, em inícios do séc. XX, verificado por Lewis Boss. Ainda no que respeita ao equipamento cronográfico, Rodrigues projectou também uma pendula de compensação com pêndulo duplo, que chegou a ser construída mas que terá permanecido ao nível de uma experiência de instrumentação.

Em 1890, F. A. Oom cometeu suicídio e Rodrigues sucedeu-lhe no cargo de director, passando a ser o único astrónomo. A breve prazo, o filho de F. A. Oom, Frederico Thomaz Oom (1864-1930; será daqui em diante referido simplesmente como Frederico Oom, para evitar confusão com o pai, F. A. Oom) seria nomeado astrónomo de 2ª classe, o que inaugura um novo período da história do OAL, concomitante com a fase terminal da monarquia portuguesa desencadeada pelo Ultimatum inglês. Os acontecimentos mais marcantes na história do Observatório, assim como na carreira de Rodrigues, teriam lugar, grosso modo, no decurso dos 15 anos seguintes. Frederico Oom depressa assumiu um papel central na gestão dos assuntos do OAL. Não só mostrou grande iniciativa ao nível da rentabilização dos equipamentos disponíveis, como se empenhou na divulgação das inovações técnicas e metodológicas desenvolvidas por Rodrigues, que haviam até então permanecido na obscuridade. Pode ser tomado como seguro que pelo menos alguns dos vários artigos publicados com a assinatura de Rodrigues nos anos seguintes foram da lavra de Frderico Oom, e que todos se deveram à sua iniciativa.

Frederico Oom também envidou esforços no sentido de estabelecer uma frente pública para o OAL, mais evidente do que a quase despercebida, ainda que longamente estabelecida, intervenção a nível da transmissão da hora oficial. A título de exemplo, refira-se que daí resultou a publicação, em 1916, da primeira edição dos Dados Astronómicos para os Almanaques em Portugal, uma exposição das principais efemérides astronómicas anuais dirigida ao grande público. Com Frederico Oom empenhado em conseguir o reconhecimento e o prestígio que o seu pai, em vida, não conseguira granjear para o OAL, Rodrigues pôde passar as restantes décadas da sua vida consagrado aos dispositivos, observações e cálculos que sempre haviam absorvido a sua atenção, mesmo que, fruto da idade, com menos vigor. Foi um Rodrigues já sexagenário que obteve inequívoco reconhecimento por parte da comunidade internacional. Em 1892 John Eastman (1836-1913), do Observatório Naval dos Estados Unidos, lançara um apelo a comunidade astronómica internacional para que fossem efectuadas observações no maior número de observatórios possível. O objectivo era efectuar uma nova determinação da paralaxe solar aproveitando a oposição de Marte que teve lugar em Agosto desse ano, e que trouxe o planeta a uma proximidade significativa com a Terra. O OAL aderiu à campanha, tendo Rodrigues e Oom efectuado observações de estrelas de referência e das sucessivas posições de Marte. A sua posição relativamente baixa na esfera celeste, a circulação tardia do protocolo observacional (que era, aliás, bastante complexo), e o mau tempo que afectou vários observatórios, ditaram o fracasso da campanha. Ainda assim, Frederico Oom insistiu na publicação das observações do OAL, que foram apresentadas em 1895 num volume redigido em francês e intitulado Observations méridiennes de la planète Mars pendant l’opposition de 1892. Para além de aí expor os métodos observacionais utilizados e de apresentar os resultados das observações das estrelas de referência, Frederico Oom também descreveu em detalhe o aparato empregue, salientando as várias modificações introduzidas por Campos Rodrigues. A obra foi distribuída internacionalmente e, apesar do impacto reduzido, recebeu uma recensão elogiosa de Guillaume Bigaurdan (1851-1932). Em 1903. T. J. J. See (1866-1962) salientou que o valor obtido em Lisboa para o diâmetro equatorial de Marte (9″.05 ± 0″.44) constituía uma das melhores determinações absolutas efectuadas até à data. Tendo sido fundado para ocupar um lugar de relevo na cena astronómica internacional, mas permanecendo décadas na obscuridade, o OAL começava assim, graças à inventividade de Rodrigues e ao empenho de Frederico Oom, a ganhar algum reconhecimento. Por esta altura, dadas as crescentes tensões coloniais agudizadas pelo Ultimatum, o OAL era também chamado a colaborar nas actividades de repressão e controlo das populações nativas, tendo Campos Rodrigues fornecido uma série de cálculos relativos ao nascimento e ocaso da Lua empregues na missão liderada por Joaquim Mouzinho de Albuquerque (1855-1902), que resultou na prisão do régulo Gungunhana em 1895.

Em 1900, o OAL envolveu-se numa campanha lançada no âmbito do projecto internacional Carte du Ciel, que tinha por objectivo proceder a uma nova determinação da paralaxe solar por meio de observações do asteróide Eros, descoberto dois anos antes. O projecto Carte du Ciel havia sido lançado no final dos anos 1880, em Paris, com o objectivo de proceder, tal como o nome indica, a um mapeamento exaustivo do céu, por meio da fotografia. F. A. Oom chegou mesmo a representar o OAL na primeira reunião do projecto realizada na capital francesa em 1887, mas, certamente devido à incapacidade financeira para adquirir o necessário equipamento, Lisboa ficaria de fora. A campanha de Eros fora lançada numa altura em que se verificava uma certa dispersão nas actividades dos vários observatórios envolvidos, e em que o empreendimento se via ameaçado na sua originalidade e utilidade por um projecto concorrente conduzido em Harvard por Edward Charles Pickering (1846-1919). Dado que a paralaxe solar carecia ainda de um valor com precisão satisfatória, a descoberta do asteróide Eros, que em certas ocasiões do seu percurso orbital se aproxima grandemente da Terra, veio abrir a possibilidade não só de se efectuar uma nova determinação desse parâmetro, como também de dinamizar a cooperação entre os observatórios envolvidos na Carte du Ciel através de um sub-projecto de curto prazo. O OAL teve aqui a oportunidade para se redimir da sua exclusão do programa principal. Não se encontrando dotado senão de instrumentos que, mesmo grandemente aperfeiçoados, denunciavam uma gritante falta de actualização, logrou contribuir com observações meridianas tradicionais para a elaboração de um catálogo de estrelas de referência, que serviriam para a determinação das posições do asteróide. Esta era a única contribuição ao alcance do observatório português, pois o protocolo observacional assentava sobretudo na fotografia, e mesmo as restantes tarefas colidiam com as limitações instrumentais do OAL.

Reactivou-se então o aparato empregue por ocasião da oposição de Marte de 1892. As observações foram novamente efectuadas por Campos Rodrigues e Frederico Oom, agora juntamente com Artur Teixeira Bastos (?-1931), que ingressara no OAL em 1894. Em 1904, foram publicados os resultados relativos à elaboração do catálogo de estrelas de referência. O OAL destacava-se entre os 13 observatórios que haviam trabalhado para esse objectivo específico, tendo contribuído com as observações mais numerosas e exactas. No final desse mesmo ano, a Academia das Ciências de Paris distinguiu Rodrigues com o Premio Valz. Esta distinção fora estabelecida em 1874 com o objectivo de galardoar anualmente o autor de observações astronómicas especialmente relevantes. O valor pecuniário do prémio (460 francos) era relativamente modesto face ao panorama dos muitos prémios atribuídos regularmente por aquela academia, mas a distinção, que já havia sido atribuída a astrónomos da nomeada de Ernst Tempel (1821-1889), David Gill (1843-1914) e William Huggins, constituiu uma marca inequívoca de reconhecimento internacional. Não só consagrou Rodrigues como um competente astrónomo e especialista de instrumentação, como assinalou a capacidade do OAL para prestar contribuições importantes à ciência astronómica, mesmo funcionando com recursos limitados, o que a comissão do prémio não deixou de assinalar. A distinção veio coroar uma série de acontecimentos que, quer a nível nacional quer a nível internacional, haviam já chamado a atenção para a excelência do equipamento, das técnicas e dos trabalhos efectuados no OAL, mesmo encontrando-se estes confinados à tradição da astronomia posicional clássica, e assentando sobretudo nos aperfeiçoamentos introduzidos por Rodrigues. Em 28 de Maio de 1900 dera-se um eclipse total do Sol cuja faixa de totalidade cruzara o Norte de Portugal. Nessa altura foi criada uma comissão para coordenar as diligências necessárias em termos de segurança (informação às populações, recomendações especiais aos faróis, comboios, etc.) e sobretudo no que concernia à observação científica do fenómeno. Uma vez que vários astrónomos estrangeiros, entre os quais o Astrónomo Real britânico William Christie (1845-1922), se deslocaram ao país, houve uma preocupação especial em proporcionar-lhes condições óptimas para a concretização dos seus planos de trabalho, o que também permitiria projectar uma imagem de um Portugal moderno e culturalmente sofisticado. A comissão foi dirigida por Mariano Cyrillo de Carvalho (1836-1905), professor de matemática na Escola Politécnica, mas deveu-se a Campos Rodrigues e a Frederico Oom não só a iniciativa como a efectiva coordenação das suas actividades. As várias expedições científicas nacionais e estrangeiras concentraram-se nas zonas de Aveiro e Ovar, tendo os astrónomos do OAL focado os seus esforços mais no desempenho da comissão do que na actividade científica propriamente dita. Ainda assim, foi realizado um estudo dos limites da faixa de totalidade, e Campos Rodrigues, observando o fenómeno na região da Serra da Estrela, efectuou mesmo uma série de fotografias da coroa solar, mas estes trabalhos constituíram apenas actividades laterais, e não foram publicados. O eclipse proporcionou também uma oportunidade para mostrar aos astrónomos estrangeiros, in loco, as inovações instrumentais e técnicas de Rodrigues, para as quais, posteriormente, Christie chamou a atenção dos astrónomos britânicos no decurso de uma reunião da Royal Astronomical Society. Em 1902, Campos Rodrigues foi promovido ao posto honorífico de vice-almirante, para o que muito contribuiu uma campanha de enaltecimento da figura do astrónomo conduzida por Frederico Oom. O discípulo havia dado a estampa elogios biográficos do mestre e publicara, em revistas internacionais, vários artigos sobre os seus trabalhos. O prémio Valz trouxe a consagração definitiva, mas nem nesse caso Rodrigues terá ficado especialmente entusiasmado, uma vez que havia persistido numa atitude de excessiva modéstia e de recusa de quaisquer honrarias. Assim procedera com as várias condecorações militares que lhe haviam sido atribuídas: os graus de Cavaleiro, Comendador e Grande Oficial da Ordem Militar de S. Bento de Aviz (respectivamente em 1876, 1890 e 1894), e a grã-cruz da Ordem de Santiago (1908). Em 12 de Marco 1906 foi-lhe consagrada uma sessão de homenagem no Club Militar Naval, por ocasião da inauguração do seu retrato nas instalações desse clube. Por essa altura já se tinha consolidado, mesmo que apenas num circulo restrito de homens de ciência e camaradas de armas, a sua imagem de santo da ciência, vivendo confinado no OAL em total dedicação à astronomia, alheio a quaisquer distracções que se pudessem interpor entre si e o seu trabalho, e ignorando toda e qualquer questiúncula, pessoal, política ou académica. Em 1904 vira-se envolvido numa polémica com António Cabreira (1868-1953), a quem, na qualidade de membro da Academia das Ciências de Lisboa, vetara a publicação de um trabalho intitulado “Sobre os corpos poligonais”, que o astrónomo considerou tratar-se de um trivial exercício geométrico. Cabreira, conhecido pelo seu frequente envolvimento em polémicas, destilou sobre Rodrigues uma prosa acintosa, tendo mesmo sido expulso da Academia das Ciências por chamar “pigmeus” aos académicos que apoiavam o astrónomo. E de notar que este havia emitido o seu parecer apenas na sequência de longa insistência, e que jamais havia presenciado uma reunião da Academia, o que foi usado como arma de arremesso por Cabreira. Não era este o único aspecto peculiar do processo de Rodrigues naquela instituição: em 1893, fora feito sócio correspondente e sócio efectivo em duas sessões consecutivas, à sua revelia.

Ainda em 1906, tiveram início os trabalhos conducentes ao estabelecimento de um observatório meteorológico, magnético e astronómico em Lourenço Marques, cuja parte astronómica, destinada à determinação e transmissão da hora para o porto daquela cidade, foi projectada e coordenada por Frederico Oom. Tratou-se de uma oportunidade não só para transferir a tecnologia do serviço horário do OAL para as possessões coloniais portuguesas, mas também para prestar mais uma homenagem ao astrónomo, tendo ao novo estabelecimento sido atribuída a designação Observatório Campos Rodrigues. Ainda que neste caso a ligação à Tapada fosse mais evidente, Rodrigues e o discípulo Frederico Oom prestaram aconselhamento e apoio técnico e científico a outras instituições e empreendimentos de natureza colonial, tais como o Observatório João Capello em Luanda, e as missões geográficas conduzidas em África por Gago Coutinho (nomeadamente a do Barotze, em 1913-14). Também no território metropolitano Rodrigues era amiúde solicitado a respeito de questões de instrumentação e técnicas de cálculo, tendo dado apoio a instituições como a Direcção Geral dos Trabalhos Geodésicos e a vários dos seus pares cientistas, entre os quais João Capello, Mariano Cyrillo de Carvalho e Eduardo Andrea (1879-1937). A passagem deste último pelo OAL em 1904, na qualidade de astrónomo aluno, haveria de resultar na inclusão de algumas das técnicas de cálculo empregues na Tapada no programa da cadeira de Astronomia e Geodesia da Escola Politécnica (mais tarde Faculdade de Ciências), da qual Andrea se tornaria o regente. Para alem do já referido caso do eclipse de 1900, Rodrigues prestou também apoio a pares estrangeiros: por exemplo, em 1877 colaborou (juntamente com F. A. Oom) com oficiais norte-americanos que se deslocaram a Portugal para efectuar determinações de longitude, e em 1896 foi consultado por astrónomos espanhóis encarregados da determinação da diferença de longitude entre as capitais ibéricas.

Com a mudança de regime em 1910, o Real Observatório Astronómico de Lisboa perdeu o epíteto “Real”, mas a sua actividade científica permaneceu confinada à tradicional astronomia de posição, e fortemente assente nos aparelhos e métodos desenvolvidos por Rodrigues. Assim haveria de ser pelo séc. XX fora, até à actividade observacional cessar definitivamente nos anos 80. Compreensivelmente, dada esta cristalização instrumental e metodológica no seio de uma ciência em progressão galopante, o OAL jamais regressaria ao nível mostrado na viragem de século, se bem que, é importante reter, já nessa altura se encontrava a funcionar no limite das suas possibilidades.

Rodrigues havia passado ao quadro auxiliar da Marinha em 1902 por ter atingido o limite de idade para aposentação, mas optara por um vencimento inferior a pensão de reforma militar, conservando-se no seu posto científico. Em 1917, foi nomeado presidente da Sociedade Portuguesa de Astronomia, criada com o intuito de unir astrónomos profissionais, amadores e simples interessados na promoção desta ciência. O cargo era nominal e o nome do astrónomo foi certamente escolhido à sua revelia. De qualquer modo, a Sociedade parece não ter tido impacto nem longevidade. Rodrigues era ainda o director do OAL quando, em 1919, Arthur Eddington (1882-1944) solicitou o apoio logístico do observatório português para a sua expedição à Ilha do Príncipe, onde observou e fotografou o eclipse do sol de 29 de Maio de 1919, detectando o desvio dos raios luminosos das estrelas pela massa do sol tal como previsto pela teoria da relatividade geral de Albert Einstein (1879-1955). Campos Rodrigues faleceu nesse mesmo ano de 1919, na madrugada do dia de Natal. A maioria dos dispositivos que absorveram totalmente a sua atenção durante cerca de meio século pode ainda hoje ser apreciada no edifício principal do OAL, cujo património constitui um caso excepcional de preservação da memória histórica dos instrumentos e das técnicas da astronomia posicional, é dos mais relevantes contributos portugueses nesse campo.

Obras de Campos Rodrigues

Campos Rodrigues, «Observations d’occultations pendant l’éclipse total de la Lune, 1891, novembre 15», Astronomische Nachrichten, 138 (1895) cols. 107-110.

Campos Rodrigues, «Observations des Léonides 1898, 1899», Astronomische Nachrichten, 158 (1899) cols. 393-396; 151 (1899) cols. 119-122.

Campos Rodrigues, «The failure of the Leonids in 1899. Observations at Lisbon, Portugal», Popular astronomy, 8 (1900), 24-25.

Campos Rodrigues, «Corrections aux Ascensions Droites de quelques étoiles du Berliner Jahrbuch observées à Lisbonne (Tapada)», Astronomische Nachrichten, 159 (1902) 329-360.

Campos Rodrigues, «Personal Equation», The Observatory, 25, 316 (1902) 121-124.

Campos Rodrigues, «Einfache Einrichtung zur Beleuchtung der Fadencines Kollimators», Zeitschrift fur Instrumenenkunde, XXII (1902) 142-143.

Campos Rodrigues, «Kurvenlineal fur Kreisbögen», Deutsche Mechaniker-Zeitung, 17 (1902) 166-167.

Campos Rodrigues, «Bewegliche Leitern zur Beobachtung des Nadirs», Deutsche Mechaniker-Zeitung, 18 (1902) 178.

Campos Rodrigues, «Le problème de Pothenot», Revista di topografia e catasto, 16 (1903-1904), 100-102.

Campos Rodrigues, «Um trissector», Il Pitagora, 10 (1903-1904) 82.

Campos Rodrigues, «Observations des Léonides 1903 novembre 15», Astronomische Nachrichten, 164 (1904) 419.

Campos Rodrigues, «Observations d’éclipses de Lune», Astronomische Nachrichten, 165 (1904), 178-184.

Campos Rodrigues, «Portuguese Standard Time», The Observatory, 34 (1911) 305.

Outras publicações, nas quais são apresentados trabalhos de Campos Rodrigues:

A. Mendes d’Almeida, Rodolpho Guimarães, Curso de topografia, vol. 1 (Lisboa: Livraria Rodrigues, 1899)

João Capello, «On an Apparatus designed for the Photographic Record of the Transit of Venus», Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, 34 (1874) 354-356.

Frederico Oom, Méthodes de Calcul Graphique en usage à l’Observatoire Royal de Lisbonne (Tapada) (Lisboa: Imprensa Nacional, 1905)

____________, Projecto que serviu à construção do Observatório “Campos Rodrigues” em Lourenço Marques na parte astronómica (Lisboa: Imprensa Nacional, 1916)

____________, Exames de um nível no Observatório da Tapada (Lisboa: Imprensa
Nacional, 1926)

Real Observatório Astronómico de Lisboa, Observations méridiennes de la planète Mars pendant l’opposition de 1892 (Lisboa: Imprensa Nacional, 1895)

Fontes biográficas (primárias)

“Notas biográficas do capitão de mar e guerra hydrographo, C. A. Campos Rodrigues”, Annaes do Club Militar Naval XXXII, 7, 8 e 9 (1902)

João Brás d’Oliveira, Campos Rodrigues – Discurso pronunciado por occasião da inauguração do seu retrato no Club Militar Naval em 12 de Março de 1906 (Lisboa: Tipografia de J. F. Pinheiro, 1906)

____________, O Vice-Almirante Campos Rodrigues – O homem de Sciência (Lisboa: Tipografia Empresa do Diário de Notícias, 1920)

____________, Campos Rodrigues (Observatório Astronómico de Lisboa, 1921)
Apêndice aos Dados Astronómicos para os Almanaques de 1922 em Portugal ((Observatório Astronómico de Lisboa, 1921))

Fontes biográficas (secundárias)

Pedro Raposo, «A Vida e a Obra do Almirante Campos Rodrigues» (Dissertação de Mestrado, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 2006)